terça-feira, 24 de maio de 2016

A Greve Geral




 acréscimo a este blog : comunico o lançamento do meu novo livro "Riqueza e Poder, a geoegologia", pela Quártica editora, em 2018, com uma palestra minha na internet que pode ser acessada pelo título do livro,  porém até agora a editora não o colocou nas páginas do site nem nos canais de venda da internet onde constam meus livros antes publicados: "O pós-moderno, poder, linguagem e história"; "Filosofia, Ceticismo, Religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio", "contos do espelho" e "contos da musa irada";  ///                                                ///                                          em abril 2019
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ATENÇÃO POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA





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      REFLEXÕES SOBRE A VIOLÊNCIA; capítulo IV
                         GEORGE SOREL

    TRADUZIDO POR ELIANE COLCHETE
               - com um estudo geoegológico sobre George Sorel
                 
                                         
Prefácio da tradutora:

              = O esclarecimento do termo "geoegologia", como a minha proposta de leitura da modernidade, encontra-se na decorrência do estudo que apresento aqui, posteriormente ao texto soreliano que venho apresentar traduzido. Nesse início é mais oportuno introduzir a temática relacionada à originalidade e importância histórica do socialismo de Sorel.
           Atualmente temos plena consciência de que  capitalismo é imperialismo, e portanto toda possibilidade de derrubar a opressão esquizofrênica dos piores bandidos que já substituíram os cargos políticos e ocuparam as empresas privadas, só pode acontecer a partir da derrubada do domínio econômico das multinacionais que os subvencionam, sobre as economias nacionais.
             Georges Sorel, pensador do início do século XX, estava ainda cerceado pela concepção do capitalismo como luta de classes local. Porém a tática da greve geral que propõe torna-se a única relevante na transformação da definição do capitalismo que está em curs. Uma vez que a "globalização" definida como a dominação ilegal, impede qualquer via da legalidade política, configurando banditismo generalizado feito às claras, com total desrespeito a qualquer forma de direitos humanos já constituídos. Isso feito com a cumplicidade ostensiva de todos os indivíduos relacionados à garantia da legalidade instituída - classes governantes, universidades, empresariado - atuando de modo integrado a dominação info-midiática da privacidade e da consciência.
               Todos até aí supostos componentes do sistema racional-legal conforme a sociologia de Weber, que vinha se tornando mais importante que a de Marx devido à composição do Estado de Bem-Estar Social estabilizado com o pós-guerras, que porém o neoliberalismo econômico solapou, assim como às garantias da legalidade civil.
          Esse fato  mostra pois que ao contrário de Weber e conforme Marx,  o caráter racional-legal não é inerente ao capitalismo, mas apenas recurso da sociedade civil contra ele, de modo que se o recurso deixa de vigorar, assim também já não se veririca qualquer possibilidade de não se estar simplesmente  exposto à sanha de fascínoras.
        Tenho escrito copiosamente na internet a defesa da democracia e da legalidade, em consonância com o conceito atual do desenvolvimento humano. Porém temos sido de tal modo atacados por ações tão verdadeiramente insanas por parte daqueles que ocupam postos públicos e empresas privadas reputadas até aqui respeitáveis, além da dominação mais odiosa da consciência que se opera por parte da penetração info-midiática, que não nos resta outro raciocínio do que a óbvia dedução da necessidade de depor pela força aos bandidos a fim de que qualquer ordem civil isenta das mais gritantes humilhações  das pessoas honestas - até o ponto de se verem roubadas do pão cotidiano - possa ser instituída. 
            Que o capital-imperialismo deve ser culpado é igualmente óbvio pelo fato de que as piores formas de violência praticadas pelos bandidos contra pessoas honestas vem sendo conspícua nestes anos com apoio do discurso de mídias, televisão, propaganda, etc. - tudo o que depende do patrocínio, além de que são as próprias empresas multinacionais que estão perpetrando os piores abusos neste país. Após o impeachment a perseguição desses bandidos em nossas vidas apenas recrudesceu a ponto de dotar-se de ações completamente revoltantes, de ilegalismo ostensivo na forma do abuso econômico  - além da violência criminal que está se disseminando como barbárie popular, a partir do desletramento intensivo.
           Assim, ao contrário do que os vestígios do Estado de Bem Estar Social (Welfare State)pudessem ter ainda nos feito crer, a greve geral como forma violenta da ação é a único modo que resta às pessoas honestas de contestar o abuso tirânico que está instalado como banditismo  info-midiático de multinacionais. A greve geral que Sorel especifica está voltada tanto contra o capitalismo quanto contra as falsas esquerdas que ele denuncia e define quanto ao modo de operar.
          É óbvio que se as instituições invadidas por bandidos que tal forma de corrupção instalou forem destituídas do poder de funcionar, não importando se a corrupção instalada coopta esquerdas ou direitas, o imperialismo estará morto.
           Minha tradução tencionou manter o mais possível a fidelidade ao texto dos tradutores para o inglês, E. Hulme e J. Roth. Conservei o termo original entre parêntesis quando considerei tratar-se mais de um conceito do que um termo utilizado de modo corrente, ou quando o significado da expressão me pareceu incerto.
           Meu contato com a obra de Sorel iniciou-se há três anos atrás, por coincidência poucas semanas antes de eclodir as revoltas populares de 2013. Um balanço daquele movimento constata hoje que apenas as coisas pioraram enormemente, nenhuma das promessas de reforma foi cumprida, bem pelo contrário. Os acusados de terem liderado movimentos de protesto estão presos, e é coerente pensar que os policiais que defenderam tão esforçadamente os palácios da prefeitura e do governador do Estado hoje se arrependem, posto que ficaram em março deste ano sem salários por parte de uma administração verdadeiramente odiosa - que de resto está achincalhando todos os direitos de pagamento das demais categorias dos trabalhadores, além de estar exigindo contas absurdas de pessoas que já pagaram impostos.
          Minha interpretação pessoal é de que devíamos apenas ler "pessoas honestas" ali onde Sorel grafou "proletariado", "sindicalismo" ou "marxismo". Seja como for que a obra de Sorel possa ser recebida pelo público atual, sem dúvida sua leitura desafia as veleidades dos bandidos passaram por cima das leis que garantem a liberdade de consciência e expressão.
            De resto,  não é por isso nem jamais saberemos exatamente porque não se tem nenhuma dúvida sobre estarmos ameaçados de morte  por tais bandidos há tempos aboletados na "coisa pública" - a não ser o mero fato de sua canalhice sórdida tão ostentosa, afeita como está a dirigir-nos ofensas da mesma jaez dos nazistas e fascistas contra a população a quem sistematicametne perseguiram nos tempos da guerra.
            A publicação do blog expressa a confiança em que a mensagem registrada alcançará o público  - não obstante minha reiteradas denúncias em blogs sobre o fato de contas de internet e "personal computers" estarem intrusados por falta de segurança pública. Assim continua sendo necessário apor em blogs a observação de que erros muito pronunciados de digitação, falhas na coerência ou alterações de tamanho de letras são perpetrados por intrusos criminosos desconhecidos, não devendo ser associados em hipótese alguma a minha ação como proprietária da conta e autora do texto.
           Como procedo aqui gradualmente a tradução, as notas numeradas só aparecerão ao final do trabalho. Anexei um estudo meu sobre a obra de Sorel, expondo o que considero que hoje podem ser consideradas tanto as condições limitantes dela do ponto de vista histórico, como o que revela continuar atual em ciência política.

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       "capítulo IV:
                 
                 A Greve Geral Proletária
                                                 George Sorel 
         A cada tentativa da obtenção de qualquer  concepção exata acerca das noções que estão por trás da violência do proletariado somos forçados a voltar à noção da greve geral; e essa mesma concepção pode servir a vários objetivos, assim como jogar uma luz inesperada em todas as obscuras componentes do Socialismo. Nas últimas páginas do primeiro capítulo eu comparei a greve geral com a batalha napoleônica que esmagou definitivamente um adversário; essa comparação nos auxiliará a entender a parte que tem a greve geral neste mundo de ideias.
         Escritores militares de hoje, quando discutem os novos métodos de guerra necessários pelo emprego de tropas infinitamente mais numerosas do que aquelas de Napoleão, equipadas com armas muito mais letais do que as daquele tempo, não fazem nada além de imaginar que guerras se devem decidir de qualquer outro modo como o da batalha napoleônica. As novas táticas propostas precisam atuar no coração do drama que  Napoleão concebeu; o desenvolvimento detalhado do combate será sem dúvida bem irredutível ao que costumava ser, mas o fim tem que ser a mesma catastrófica capitulação do inimigo. Os métodos da instrução militar almejam fazer com que o soldado esteja apto para tal ação grande e terrível, na qual todo mundo precisa estar pronto para tomar parte ao primeiro sinal de alarma. Assim, do mais alto ao mais humilde, os membros de uma armada realmente sólida tem sempre em mente esta  catastrófica realização do conflitos  internacionais.
          Os sindicatos revolucionários argumentam sobre a ação Socialista do mesmo modo que os escritores militares argumentam sobre a guerra; eles restringem o todo do Socialismo à greve geral; observam qualquer combinação que possa culminar na catástrofe do adversário. eles observam cada greve como um facsimile reduzido, um ensaio, uma preparação para o grande transtorno final.    
          A "nova escola", que se autodesigna Marxista, sindicalista e revolucionária, declarou em favor da  ideia da greve geral tão logo se tornou claramente consciente do verdadeiro sentido de sua própria doutrina, das consequências de sua atividade, e de sua  própria originalidade. Ela deve  pois conduzir ao abandono dos velhos  tabernáculos utópicos oficiais, que viam a greve geral com terror, e se colocar na verdadeira corrente do movimento proletário; já há muito tempo  a adesão do proletariado ao princípio da greve geral atua como o teste pelo qual podemos separar o Socialismo dos verdadeiros trabalhadores daquele dos revolucionários amadores.   
        Os Socialistas Parlamentares podem apenas obter grande influência quando, pelo uso de uma linguagem bastante confusa, logram impor-se a si mesmos a  grupos muito diversos; por exemplo, eles precisam ter trabalhadores simplórios o bastante para se deixarem lograr por frases altissonantes sobre o futuro coletivismo; eles necessitam representar a si mesmos como filósofos profundos para uma classe média composta de  pessoas ignorantes o bastante para quererem parecer bem informadas sobre questões sociais; é realmente necessário também para eles estar aptos a explorar pessoas ricas que pensam garantir a gratidão da humanidade por tomar parte em tais empreendimentos de políticos Socialitas. Tais influências são infundadas, e assim as tentativas de semear confusão nas ideias dos leitores, ainda que por vezes obtenham algum sucesso; eles detestam a greve geral porque toda propaganda que vai além desse ponto de vista obtuso é demasiado socialista para agradar filantropos que apenas exploram a miséria alheia.
            Nas bocas desses autoproduzidos representantes do proletariado todas as fórmulas socialistas deixam de expressar o verdadeiro sentido. A luta de classes permanece o grande princípio, mas apenas subordinada à solidariedade nacional (1). Internacionalismo é um artigo de fé sobre sobre o qual os mais moderados declaram-se prontos para fazer seus mais solenes juramentos; mas o patriotismo também impõem sagradas dívidas (2). A emancipação dos trabalhadores tem que ser obra dos trabalhadores mesmos - os seus jornais repetem isso todos os dias - mas emancipação real apra eles consiste em votar num político profissional, que garante a eles os meios de obter uma situação confortável no mundo, e os sujeita a um líder. Afinal o Estado deve desparecer - e tornam-se eles muito cuidadosos ao disputar sobre o que Engels escreveu a propósito disso mas esse desaparecimento só vai acontecer num futuro tão distante que só podemos nos adaptar a isso usando o Estado enquanto um meio de prover políticos com ninharias; e o melhor meio de prover o desaparecimento do Estado consiste em utilizar ao máximo a máquina governamental. Esse método de raciocínio assemelha-se ao de Gribuile, que se jogou na água para safar-se de se ter molhado pela chuva.     
       Páginas inteiras podem se encher de inúmeros parágrafos sobre a argumentação contraditória, risível, tola, que formam a substância das arengas dos nossos grandes homens; nada os embaraça, e sabem muito combinar em discursos pomposos, nebulosos e impetuosos, o mais absolutamente irreconciliável com o mais flexível oportunismo. Um notório expoente do Socialismo disse que a arte de reconciliar opostos por meio do contrassenso é o mais óbvio resultado a que ele chegou pelo estudo das obras de Marx (3). Confesso minha incompetência nessas difíceis matérias; não me importo com o que quer que possa ser considerado importante por pessoas a quem os políticos conferem o título de sapientes; embora eu não possa facilmente conceder-me admitir que esta é a súmula e a substância da filosofia de Marx.
         A controvérsia entre Jaurès e Clemenceau demonstrou facilmente que nossos Socialistas Parlamentares podem ter sucesso em decepcionar o público apenas por seus equívocos, e que, como resultado da contínua decepção dos seus leitores, afinal perdem o sendo de toda discussão honesta. O Aurora de 4 de Setembro de 1905, Clemenceau acusa Jaurès de confundir a mente dos partidários  "com sutilezas metafísicas nas quais eles são incapazes de segui-lo"; não há nada a objetar a essa acusação, salvo o uso do termo "metafísico"; Jaurès é não mais um metafísico do que um advogado e um astrônomo. No número de 26 de Outubro Clemenceau prova que seu oponente possui "a arte de falsificar seus textos" e ele termina por dizer "parece-me instrutivo expor certas práticas polêmicas que erradamente costumamos supor ser o monopólio dos Jesuítas".
              Contra este Socialismo barulhento, gárrulo e mentiroso, explorado por pessoas ambiciosas de todo tipo descritível, que só agradam a uns poucos bufões, e que só é admirado por decadentes - o Sindicalismo revolucionário toma sua posição e tenta, ao contrário, nada deixar num estado de indecisão; suas ideias são honestamente expressas, sem falsidade e sem reservas; nenhuma tentativa é feita no sentido de diluir doutrinas por uma profusão de comentários confusos. O Sindicalismo tenta empregar métodos de expressão que joga uma verdadeira luz nas coisas, que as põe exatamente em seu lugar assinalado pela sua própria natureza, e concede o verdadeiro valor às forças em jogo. Oposições, ao invés de serem ocultadas, tem que ser colocadas em agudo relevo se desejamos obter ideias claras sobre o movimento revolucionário; os grupos que estão lutando uns contra os outros precisam ser mostrado tão separados e compactos quanto possível; resumindo, os movimentos das massas rvoltadas tem que ser representados de modo que a alma dos revolucinários possam receber uma impressão profunda e final.
           Esses resultados podem não se produzirem de um modo verdadeiramente certo pelo uso da linguagem ordinária; é preciso fazer uso de um corpo de imagens que, apenas por intuição, e antes que quaisquer análises consideráveis possam se fazer, sejam capazes de evocar como um todo inteiro a massa de sentimentos que corresponde as várias manifestações da guerra empreendida pelo Socialismo contra a sociedade moderna. Os Sindicalistas Revolucionários resolvem esse problema perfeitamente, por concentrar o todo do Socialismo no drama da greve geral; não pode pois restar qualquer papel para a reconciliação dos contrários nas equivocações dos professores; tudo está claramente mapeado de modo que apenas uma interpretação do Socialismo seja possível. Esse método tem todas as vantagens que um conhecimento "integral" tem sobre a análise, conforme a doutrina de Bergson, e talvez não seja possível citar outro exemplo que poderia tão perfeitamente demonstrar o valor das famosas doutrinas dos professores (4).
              A possibilidade da realização atual da greve geral tem sido muito discutida; tem sido reconhecido que a guerra Socialista não deve ser decidida numa só batalha. Às pessoas que pensam cuidadosa, prática e cientificamente, a dificuldade em colocar grandes massas do proletariado em movimento ao mesmo tempo parece prodigiosa; eles tem analisado detalhadamente as dificuldades que uma imensa batalha representa. É opinião dos Socialistas  sociólogos, assim como dos políticos, que a greve geral é um sonho popular, característico dos começos do movimento da classe trabalhadora; tem sido citado contra nós a autoridade de Sidney Webb, decretando que a greve geral é uma ilusão da juventude (5), da qual os trabalhadores ingleses - a quem os monopolistas da sociologia tem tão frequentemente a presentado a nós como depositários da verdadeira concepção do movimento da classe trabalhadora - logo se livraram.
         Que a greve geral não é popular na contemporânea Inglaterra, é um pobre argumento para se voltar contra o alcance histórico da ideia, pois os ingleses se distinguem por uma extraordinária falta de compreensão da luta de classes; suas ideias permanecem demasiado dominadas pela influência medieval: a guilda, privilegiada, ou afinal protegida por leis. ainda parece a eles o ideal da organização da classe trabalhadora; é para a Inglaterra que o termo aristocracia da classe trabalhadora, como um nome para o trabalho-unionismo (trade unionism) foi inventado, e, de fato, o trabalho-unionismo tem obtido privilégios legais (6). Podemos afirmar em geral que a aversão sentida pela Inglaterra relativamente à greve geral deve ser observada como uma forte evidência em favor desta como a essência do Socialismo.
           Além disso, Sidney Webb desfruta da reputação de competência que é muito exagerada; tudo o que se pode colocar ao seu crédito que leu com dificuldade alguns livros, e teve a paciência de compor uma compilação extremamente indigesta da história das uniões trabalhistas; ele tinha o gosto das descrições estreitas, que podia impressionar apenas pessoas não afeitas à reflexão (7). Aqueles que introduziram a sua fama na França não sabem coisa alguma sobre o Socialismo; e se ele está realmente na primeira linha dos autores contemporâneos de história econõmica, como afirma seu tradutor, é porque o nível intelectual desses historiadores é singularmente baixo; além disso, há muitos exemplos a nos provar possível ser o mais ilustra profissional historiador e ainda assim possuir uma mente pouco menos que medíocre.
        Tampouco concedo eu qualquer importância às objeções feitas à greve geral baseadas na consideração de ordem prática. A tentativa de construir  hipóteses sobre a natureza das lutas do futuro a dos meios de suprimir o capitalismo, pelo modelo fornecido na História, é um retorno aos velhos métodos dos Utopistas. Não há qualquer processo pelo qual o futuro  pode ser cientificamente predito, nem qualquer um que nos capacite a discutir sobre qual, entre  uma ou outra hipótese preditiva, é a melhor; já está provado por inúmeros exemplos memoráveis que os maiores homens cometeram erros prodigiosos devido ao desejo de fazer predições sobre o futuro mais remoto (9).
           E ainda sem deixar o presente, sem raciocinar sobre tal futuro, que parece para sempre condenado a escapar à nossa intelecção, nós poderíamos parecer incapacitados para agir de qualquer maneira. A expreiência mostra que a concepção de um futuro, em algum tempo indeterminado, pode, quando é feita de um certo modo, ser bastante efetiva, contando com bem poucas inconveniências; isso acontece qu ando a antecipação do futuro toma a forma daqueles mitos, que encerram em si as mais fortes inclinações de um povo,  um partido ou uma classe, inclinações que retornam à mente com a insistência de instintos em todas as circunstâncias da vida; e que dão um aspecto de completa realidade às esperanças por ação imediata pelas quais, mais facilmente do que por qualquer outro método, as pessoas podem reformar seus desejos, paixões, a atividade mental. Nós sabemos, além disso, que estes mitos sociais nunca impedem a alguém os proveitos que vem da observação do que faz em seu curso normal de vida, jamais fo rmando obstáculo ao prosseguimento de suas ocupações regulares (10).
           
                   A verdade do acima exposto pode ser mostrada por numerosos exemplos.
        Os primitivos cristãos experavamo retorno de Cristo e a ruína total do mundo pagão, com a inauguração do reino dos santos, no fim da primeira geração. A catástrofe não veio mas os cristãos encontraram tão grande proveito nesse mito apocalíptico que alguns eruditos contemporâneos creem que a totalidade da pregação do Cristo se refere a este único ponto (11). As esperanças que Lutero e Calvino depositaram na exaltação religiosa da Europa, foram ainda assim realizadas; estes pais da Reforma logo pareceram homens de uma era passada; para os protestantes de hoje eles pertencem mais à Idade Média do que aos tempos modernos, e os problemas que  mais os preocuparam ocupam bem pouco o espaço  do protestantismo contemporâneo. Mas só por isso deveríamos negar o proveito imento que teve os seus sonhos de renovação cristã? É preciso conceder que o desenvolvimento real da Revolução não parece de forma alguma com as imagens encantadoras que o entusiasmo formou  nestes primeiros adeptos; mas sem essas imagens poderia a Revolução ser vitoriosa? Inúmeras utopias foram misturadas com o mito revolucionário (12), por ter sido este formado por uma sociedade passionalmente devotada à literatura, cheia de confiança na "ciência" (13), de pouquíssimo trato com a história econômica do passado. Essas utopias dão em nada, mas deveríamos perguntar se a Revolução não é uma transformação muito mais profunda do que aquela com que sonham as pessoas que no século dezoito inventaram as utopias sociais. Em nossa própria época Mazzini perseguiu o que os sabichões chamaram uma quimera louca; mas não se pode negar que sem sua ação, a Itália nunca teria se tornado um verdadeiro poder, e que ele Mazzini fez mais pela unidade italiana do que Cavour e todos os políticos de sua escola.
         Um conhecimento do que os mitos contem ao modo de detalhes que irão realmente tomar parte na história do futuro é de menor importância; eles não são almanaques astrológicos; é possível que nada do que eles contenham venha algum dia a acontecer - assim como a catástrofe esperada pelos primitivos cristãos (14). Em nosso próprio cotidiano, não estamos já familiarizados com o fato de que aquilo que acontece realmente é muito diferente de nossas noções preconcebidas a propósito? E isso não nos impede de continuar a tomar resoluções. Psicólogos afirmarm que existe heterogeneidade entre os objetivos em vista e aqueles realmente obtidos:  a experiência comezinha revela a nós esta lei, que Spencer transferiu à natureza, para extrair desse modo sua teoria da multiplicação dos efeitos (15).
          O mito deve ser julgado como um meio de atuar no presente; qualquer tentativa de discutir até onde ele pode ser tomado literalmente como uma história futura é destituída de sentido. É o mito em sua inteireza só o que importa: suas partes são de interesse apenas até onde expressam a ideia principal. Nenhum propósito útil se obtem, portanto, com o argumento sobre os incidentes que podem ocorrer no curso de uma guerra civil, e sobre os conflitos decisivos que podem dar a vitória decisiva ao proletariado; mesmo supondo que os revolucionários foram total e completamente enganados ao conceber a imaginária cena (picture) da greve geral, ela pode ainda ser,  no curso da preparação da Revolução, um elemento de valor, se realmente abarca as aspirações do Socialismo, e se tiver dado ao todo do pensamento Revolucionário uma exatidão e uma firmeza que nenhum outro método de pensamento poderia dar.
        Para termos uma estimativa, pois, da significação da ideia da greve geral, todos os métodos de discussão que são correntes entre políticos, sociólogos, ou pessoas com veleidades de ciência política, tem que ser abandonados. Tudo o que os oponentes deles tentam estabelecer deve ser concedido, sem reduzir em qualquer modo o valor da teoria que eles pensam ter refutado. A questão de se a greve geral é uma realidade parcial, ou apenas um produto da imaginação popular, é de menor importância. Tudo que se precisa saber é se a greve geral c ontem tudo o que a doutrina Socialista espera do proletariado revolucionário.
          Para resolver essa questão não estamos muito inclinados a discutir de modo erudito sobre o futuro, não e stamos obrigados a indulgir em pomposas reflexões sobre filosofia, história ou economia; não estamos no plano de teorias, e podemos permanecer naquele dos fatos observáveis. Temos que perguntar às pessoas que tomam parte verdadeiramente ativa no movimento revolucionário real entre o proletariado, pessoas que não aspiram elevar-se à classe média e cujas mentes não estão dominadas por preconceitos corporativos. Essas pessoas podem decepcionar em inúmeras questões envolvendo política, economia ou moral; mas seu testemunho é decisivo, soberano e irrefutável quando se trata de saber quais são as ideias que mais poderosamente movem a elas e aos seus companheiros, que mais apelam a si como sendo idêntico a suas concepções socialistas, e graças ás quais seus motivos, suas esperanças e seu modo de ver fatos particulares parecem fazer uma unidade sem divisão (16).
            Graças a essas pessoas, nós sabemos que a greve geral é de fato como expressei: o mito em que o Socialismo está totalmente constituído, i.e., um corpo de imagens capaz de evocar sem distinção todos os sentimentos que correspondem a várias manifestações da guerra movida pelo Socialismo contra a sociedade moderna. Greves engendram no proletariado a nobreza, profundidade, e os mais comoventes sentimentos que ele possui: a greve geral agrupa nele tudo em uma cena coordenada, e, ao reunir o proletariado, dá a cada elemento dele o máximo de intensidade. Apelando às suas dolorosas memórias de conflitos particulares, colore com intensa vida todos os detalhes da composição apresentada à sua consciência. Assim obtemos a intuição do Socialismo que a linguagem não pode nos dar com perfeita clareza - e nós o obemos como um todo, percebido instantaneamente (17).
          Podemos ainda requerer outro meio de evidenciar a comprovação do poder da ideia da greve geral. Se essa ideia fosse uma pura quimera, como frequentemente se diz, o Socialismo Parlamentar não a atacaria com tanto fervor; eu não me recordo deles terem atacado as esperanças sem sentido que os utopistas estão sempre sacudindo na frente dos olhos fascinados do povo (18). No curso da polêmica a propósito de reformas sociais realizáveis, Clemenceau  expressou o maquiavelismo da atitude de Jaurès, quando confrontado com s ilusões populares: ele abrigava sua consciência em "alguma sentença sabiamente equilibrada," mas tão sabiamente equilibrada que "seria recebida sem pensar por todos os que tivessem grande necessidade de esquadrinhar sua substância, enquanto beberiam com delícia a enganadora retórica das piadas mundanas por vir" (Aurora, Dezembro 28, 1905). Mas em se tratando da questão da greve geral, então é bem outra coisa; nossos políticos já não se contem em reservas complicadas; eles falam violentamente, e tentam  induzir o ouvinte a abandonar essa concepção. 
          É fácil entender a razão dessa atitude: políticos nada tem a temer de utopias que apresentam ao povo uma miragem decepcionante do futuro, e traz "os homens para as imediatas realizações da felicidade terrestre, que quem quer que observe cientificamente sabe que podem ser só parcialmente realizadas, e mesmo assim somente após longos esforços de várias gerações." (Isso é o que os políticos Socialistas fazem, conforme Clemenceau). Quanto mais os eleitores acreditam nas mágicas forças do Estado, mais estarão dispostos a votar no candidato que promete maravilhas; na batalha eleitoral cda candidato tenta sobrepujar os outros:  para que os candidatos Socialistas possam derrotar os Radicais, os eleitores tem que ser crédulos o bastante para crer em cada promessa de futura delícia (19); nossos políticos Socialistas tomam muito cuidado, portanto, para não combater essas confortáveis utopias de qualquer modo efetivo.
        A luta deles contra a concepção da greve geral, porque eles reconhecem, no curso de suas rondas propagandísticas, que essa concepção é tão admiravelmente adaptada à mente da classe trabalhadora que há possibilidade de dominá-la completamente, assim não deixando espaço qu alquer para os desejos  que os Parlamentares são hábeis em satisfazer. Eles percebem que essa ideia é tão efetiva como força motriz que uma vez que tenha entrado na mente das pessoas elas já não podem ser controladas por líderes, e assim o poder dos deputados se reduz a nada. Resumindo, eles sentem de um modo vago que todo o movimento Socialista pode facilmente ser absorvido pela greve geral, a qual torna desusados todos os compromissos de grupos políticos em função de que o regime parlamentar foi construído.
         A oposição que ela encontra dos Socialistas oficiais, portanto, fornece a confirmação de nossa primeira indagação sobre o propósito da greve geral.

     II

            Nós devemos agora avançar, e inquirir sobre se a imagem (picture) fornecida pela greve geral está realmente completa; o que significa, se ela compreende todas as características de luta que são reconhecidas pelo moderno Socialismo. Mas, primeiro que tudo, temos que colocar o problema mais precisamente; o que não será difícil se começarmos pela explicação dada sobre a natureza da concepção. Vimos que a greve geral deve ser considerada um todo sem divisão; consequentemente, nenhum detalhe sobre modos ou meios será de grande ajuda para a compreensão do Socialismo; é preciso ainda acrescentar que há sempre o perigo de perder algo dessa compreensão, na tentativa de cindir o todo em partes. Agora tentaremos mostrar que há uma identidade fundamental entre os principais conteúdos do marxismo e os aspectos coordenados oferecidos pela imagem (picture) da greve geral.
          Essa afirmação pode certamente parecer paradoxal a muitos que tem lido publicações dos mais acreditados marxistas; e, de fato, por um longo tempo em havido uma característica hostilidade contra a greve geral nos círculos marxistas. Essa tradição tem prejudicado muito o progresso da doutrina de Marx; e é este de fato um ótimo exemplo do modo como, em regra, os discípulos tendem a restringir a aplicação das ideias do seu mestre. A nova escola  tem tido considerável dificuldade em liberar-se dessas influências; ela foi formada por pessoas que receberam a impressão marxista em grau bem demarcado; e houve um longo tempo antes que a escola reconhecesse que as objeções feitas contra a greve geral surgiram da incapacidade dos representantes oficiais do marxismo mais do que dos princípios da doutrina em si mesma (20).
           A nova escola iniciou sua emancipação no dia em que percebeu claramente que as fórmulas do Socialismo estavam frequentemente muito longe do espírito de Marx, a quando recomendou o retorno a esse espírito. Não foi sem certa monta de estupefação que ela discerniu que tais fórmulas haviam creditado ao mestre várias assim chamadas invenções que  na verdade foram feitas por seus predecessores, ou que eram lugares comuns, até, na época em que o Manifesto Comunista estava sendo produzido. Conforme um autor - que, na opinião do governo e do Musée Social é considerado bem informado - "a acumulação (do capital nas mãos de uns poucos indivíduos) é uma das grandes descobertas de Marx, uma das descobertas de que ele se sentia mais orgulhoso." (21) Com toda a deferência devida à ciência histórica desta notável luz universitária, essa teoria era uma das que estavam na boca de toda a gente antes que Marx tivesse escrito uma só palavra, e tornou-se um dogma no mundo Socialista no final do reinado de Luis-Filipe. Há várias teorias marxistas do mesmo tipo.
           Um decisivo passo para a mudança foi dado quando os marxistas que aspiravam a pensar por si mesmos começaram a estudar o movimento sindical; eles descobriram que "o genuíno trabalho-unionismo tem mais a nos ensinar do que nós a eles." (22) Esse foi o começo da sabedoria; foi um passo para o método realista que conduziu Marx a suas verdadeiras descobertas; desse modo é necessário um retorno a estes métodos que unicamente merecem o nome de filosóficos, "para que verdadeiras e frutíferas verdades tenham muito estreito contato com a corrente da realidade," e que "possam haurir sua clareza da luz em que os fatos, e a aplicação a que conduzem, faça por reflexão sombra nelas - a clareza de um conceito sendo quase nada além, no fundo, do que a certeza afinal obtida, da manipulação rendosa do conceito." (23) E ainda outro profundo conceito de Bergson poderia ser utilmente citado: "Pois não obtemos uma intuição da realidade - isto é, uma simpatia intelectual com a parte mais íntima dela - sem termos ganho sua confiança por uma longa amizade com suas manifestações superficiais. E isso não é meramente uma questão de assimilar os fatos mais conspícuos; uma massa tão imensa de fatos precisa ser acumulada e unida que em sua fusão todas as ideias preconcebidas e imaturas que os observadores puderam desapercebidamente ter colocado suas observações certamente se neutralizarão umas às outras. Assim somente a materialidade comezinha dos fatos conhecidos podem ser expostas à vista." Finalmente, o que Bergon chama uma experiência integral é obtida. (24) 
           Graças ao novo princípio, as pessoas logo reconhecem que as proposições que em sua opinião continuam uma completa afirmação do Socialismo eram tão deploravelmente inadequadas, que frequentemente resultavam mais perigosas que úteis. É o respeito supersticioso da social democracia pelo mero texto de suas doutrinas que anularam cada tentativa na Alemanha de um marxismo perfeito.
         Quando a nova escola  tiver adquirido uma compreensão total da greve geral, e tiver obtido uma intuição profunda do movimento trabalhista, verá que todas as teorias Socialistas, interpretadas à luz dessa poderosa construção, leva a um significado que até então eles não tinham atingido; perceberá que o desajeitado e raquítico aparato que foi manufaturado na Alemanha para explicar as doutrinas de Marx, deve ser rejeitado se a transformação contemporânea da ideia do proletariado deve ser seguida a contento; descobrirá que a concepção da greve geral capacita para explorar proveitosamente todo o vasto domínio do marxismo, que até aqui tem permanecido praticamente desconhecido aos próceres reputados estar guiando o Socialismo. Assim os princípios fundamentais do marxismo são perfeitamente inteligíveis apenas com a ajuda da imagem (picture) da greve geral, e, por outro lado, o verdadeiro significado dessa imagem, devemos supor, torna-se aparente apenas a quem é profundamente versado nas doutrinas de Marx.   
            A - primeiro que tudo, falarei da luta de classes, que é o ponto de partida de todo o pensamento Socialista, e que permanece muito necessitado de elucidação, desde a tentativa de sofistas produzirem uma falsa ideia a propósito.
     1) Marx fala da sociedde como se fosse fundamentalmente dividida em dois grupos antagonistas; a observação, como tem sido frequentemente requerido, não justifica essa divisão, e é verdade que uma boa dose de força de vontade é necessário para se verificar esse fenômeno na vida cotidiana.
       A organização da fábrica capitalista fornece uma primeira aproximação, e o trabalho assalariado fornece uma parte essencial na formação da ideia de classe; de fato, põe em relevo a claríssima oposição de interesses a propósito do preço das mercadorias; (25) os trabalhadores sentem por si mesmos sob os punhos dos empregadores o mesmo que os camponeses sentem sob o poder dos mercadores e rendeiros das cidades; a história mostra que nenhuma oposição economica foi mais claramente sentida do que esta última; desde que a civilização existe, o campo e a cidade formam dois lados hostis um ao outro (26). O trabalho assalariado também mostra que no mundo dos ganhos salariais há um grupo de homens algo análogos ao comércio varejista, que possuem a confiança dos empregadores, e assim não pertencem à classe proletária.
          A greve joga uma nova luz em tudo isso; ela separa os interesses e os diversos modos de pensar dos dois grupos de ganhos-salariais  - os capatazes auxiliares, engenheiros, etc. - contrastados aos trabalhadores, únicos que fazem greve, muito melhor do que fazem as circunstâncias da vida cotidiana; assim torna-se claro que o grupo administrativo tem uma tendência natural para se tornar uma pequena aristocracia; para essas pessoas, o Estado Socialista pode ser vantajoso para subirem na hierarquia social.
         Mas todas as oposições se tornam claríssimas quando os conflitos são vistos ampliados à escala da greve geral; então todas as partes da estrutura econômico-jurídica, até onde é vista sob a perspectiva da luta de classes, alcança o zênite de sua perfeição; a sociedade está patentemente cindida em dois campos, e somente em dois, num campo de batalha. Nenhuma explicação filosófica dos fatos observados na prática pode jogar tão vívida luz na situação como a extremamente simples imagem evocada pela concepção da greve geral.
       2) Poderia parecer impossível conceber o desaparecimento da dominação capitalista se não pressupomos um ardente sentimento de revolta, sempre presente na alma do trabalhador; mas a experiência mostra que bem frequentemente os revoltosos de hoje estão muito longe d epossuir um caráter especifico verdadeiramente socialista; geralmente as mais violentas explosões dependem de paixões que podem ser satisfeitas dentro do mundo da classe média; muitos revolucinários tem abandonado sua velha irreconciliação quando se encontram a caminho da fortuna (27). É mais do que apenas satisfações de tipo material que produz essas frequentes e escandalosas conversões; vaidade, muuito mais que dinheiro, é a grande força motriz na transformação do revolucionário num burguês. Tudo isso poderia ser negligenciado se fosse apenas a questão de umas poucas pessoas excepcionais, mas tem sido frequentemente afirmado que a psicologia das classes trabalhadoras adapta-se facilmente à ordem capitalista de coisas que a paz social pode ser rapidamente obtida se os empregadores por sua parte fizessem uns poucos sacrifícios de dinheiro ou de auto-estima.
           G. Le Bon afirmav que a crença em instintos revolucionários das massas é um grande erro, que sua tendência é conservadora, que todo o poder do Socialismo repousa no estado de espírito um tanto confuso da classe média, estando convencido de que s massas sempre afluirão a Cesar (28). Há uma boa dose de verdade nesses juízos, fundados num enorme conhecimento da história, mas as teorias de G. Le Bon devem ser corrigidas num ponto; elas só são válidas para sociedades que não contam com o conceito de luta de classes.
        A observação mostra que este último conceito se mantem com indestrutível vitalidade em todo círculo que tem sido tangenciado pela ideia da greve geral: assim que os menores incidentes da vida cotidiana se tornarem sintomas do estado de guerra entre as classes, quando todo conflito é um incidente na luta de classes, quando toda greve encerra a perspectiva de uma catástrofe total, assim que isso ocorrer já não restará possibilidde da paz social, de resignação à rotina, ou de entusiasmo pela filantropia dos exitosos empregadores. A ideia da greve geral tem tamanho poder atras de si que traz para a senda revolucionária tudo o que toca. Em virtude dessa ideia, o Socialismo permanece sempre jovem ; toda tentativa para realizar a paz social parece infantilidade; deserções de camaradas às fileiras da classe média, longe de desencorajar as massas, apenas a excita ainda mais que a rebelião; numa palavra, a linha de clivagem nunca está em perigo de desaparecer. 
       3) O sucesso obtido pelos políticos em suas tentativas de fazer o que eles chamam a influência proleetária ser sentida nas instituições da classe média, constitui um grande obstáculo à afirmação da noção de luta de classe. O mundo tem sido sempre ordenado pelos compromissos entre partidos opostos, e a ordem tem sido sempre provisória. Nenhuma mudança, ainda que considerável, pode ser considerada impossível num tempo como o nosso, que tem visto tantas novidades introduzidas de maneiras tão inesperadas. O progresso moderno tem se efetivado por meio de sucessivos compromissos; porque não obter os objetivos do Socialismo pelos métodos que tem sido tão exitosos? Vários meios de satisfazer os mais fortes desejos das classes desfavorecidas podem ser cogitados. Por um longo tempo as propostas de melhorias foram inspiradas pelo feudalismo conservador ou o espírito católico. Nós desejamos, afirmam os inventores, salvar as massas da influência dos radicais. Estes, vendo sua influência política atacada, não tanto por seus antigos inimigos como pelos políticos Socialistas, inventam hoje em dia todo tipo de projetos de progressiva e democrática tonalidade do livre pensamento. Estamos começando afinal a sermos ameaçados pelos compromissos Socialistas!  
           Ainda não se prestou bastante atenção ao fato de que vários tipos de sistemas políticos, administrativos e financeiros engendram e ancoram a dominação da classe média (29). Não devemos conceder muita importância a violentos ataques na classe média; eles tem por tras de si o desejo de reformar e aperfeiçoar o capitalismo (30). Ao que parece, há grande número de pessoas hoje em dia que, ainda que não desejando afinal o desaparecimento do regime capitalista, desejaria elimiar a herança assim como os seguidores de Sant-Simon (31).
        A ideia da greve geral destroi todas as consequências teóricas de toda possível política social; seus partidários consideram até as mais populares reformas como tendo um caráter de classe média; até onde estão cientes, nada pode enfraquecer a oposição fundamental da luta de classes. Quanto mais a política de reformas sociais se tornar preponderante, mais sentirão os Socialistas necessidade de colocar contra a imagem do progresso que tal política pretende fornecer, essa outra imagem da completa catástrofe forn ecida tão perfeitamente pela greve geral.
      B - Vamos agora examinar, com a ajuda do conceito de greve geral, alguns dos mais básicos aspectos da Revolução marxista.
     1) Marx afirmou que no dia da Revolução o proletariado estará disciplinado, unido e organizado pelo próprio mecanismo da produção. Esse fórmula extremamente concisa poderia não parecer muito inteligível se não a lêssemos em conexão com seu contexto; conforme Marx, a classe trabalhadora está jungido por um sistema no qual "pobreza abjeta, opressão, escravidão, degradação, e exploração aumentam," e contra o que ela está  organizando  uma sempre crescente resistência até o dia em que a totalidade da estrutura se completar (32) A acurácia dessa descrição tem sido muitas vezes questionada; parece com efeito mais relacionada ao período do Manifesto (1847) do que ao tempo em que O Capital foi publicado (1867); mas essa objeção não deve nos deter, e podemos confiar mais na perspectiva da teoria dos mitos. Os termos diferentes que Marx usa para descrever a preparação para o combate decisivo não devem ser tomados literalmente como asserções de estados de fato sobre um futuro determinado; é a descrição em sua inteireza que deve atrair nossa atenção, e assim considerando é perfeitamente clara; Marx deseja que entendamos que toda a preparação do proletariado depende unicamente na organização de  uma teimosa, crescente e apaixonada resistência à presente ordem de coisas. Este argumento é de suprema importância se temos uma boa concepção do marxismo; mas é ordinariamente contestada, senão em teoria, por fim na prática; o proletariado, como se tem afirmado, deve ser preparado para o papel que deve desempenhar no futuro por outros meios do que o sindicalismo revolucionário. Assim os expoentes da cooperação sustentam que um lugar proeminente no trabalho da emancipação tem que ser dado ao seu remédio particular; os democratas dizem que é essencial abolir todos os preconceitos que surgem da velha influência católica, etc. Muitos revolucionários acreditam que, ainda que o sindicalismo possa ser útil, ele não é, em si mesmo, suficiente para organizar  uma sociedade que requer uma nova filosofia, um novo código legal, etc.; como a divisão do trabalho é uma lei fundamental do mundo, os Socialistas não deviam se envergonhar de utilizar especialistas em filosofia e lei, de quem jamais há qualquer falha. Jaurès nunca para de repetir esse tipo de ninharia. Essa expansão do Socialismo é contrária à teoria marxista, assim como a concepção da greve geral; mas é evidente que a concepção da greve geral faz muito mais apelo à mente do que qualquer outra fórmula.
        2) Já chamei a atenção ao perigo para a futura civilização, representado pela revolução que tem lugar num período de decadência econômica; muitos marxistas não parecem ter formado uma ideia clara do pensamento de Marx a propósito. Ele acreditava que a grande catástrofe seria precedida por uma enorme crise econômica, mas a crise que Marx tinha em mente não deve ser confundida com decadência econômica; para ele as crises eram resultados de empreendimentos demasiado arriscados da parte da produção, criando forças produtivas fora de proporção com os meios de regulação que o sistema capitalista põe em circulação. Tais empreendimentos supõem que o futuro foi visto como favorável a empresas verdadeiramente grandes, e que a concepção do progresso econômico prevalecia absolutamente na época. A fim de que as baixas classes médias, que ainda estão podendo encontrar condições de existência toleráveis sob o regime capitalista, possa somar esforços com o proletarido, é essencial que possam vir a imaginar (picture) um brilhante futuro da produção com esperanças, asssim como a conquista da América apareceu primeiro aos camponeses ingleses, que deixaram a Europa para se lançarem a  uma vida aventureira.
           A greve geral leva às mesmas conclusões. Os trabalhadores estão acostumados a ver suas revoltas contra as restrições impostas pelos capitalismos serem exitosas durante períodos de prosperidade; assim podemos afirmar que se você alguma vez identifica revolução e greve geral, torna-se impossível conceber que uma transformação esssencial do mundo possa ter lugar num tempo de decadência econômica. Os trabalhadores estão igualmente conscientes de que os camponeses e artesãos não vão somar esforços com eles a não ser que o futuro pareça tão sorridente que o industrialismo estará apto a melhorar a sorte não só dos produtores mas de todo mundo (32).
          É importante sempre enfatizar ao maior grau a prosperidade que a indústria deve possuir a fim de que a realização do Socialismo torne-se possível; pois a experiência mostra-nos que procurando parar o progresso do capitalismo, e preserver os meios de existência de classes baixas, que os profetas da paz social mais tentam captar o favor popular. A dependência da revolução do progresso rápido e constante da indústria deve ser demonstrada de um modo dramático.
          3) Tão grande ênfase repousa no fato de que o marxismo condena toda hipótese sobre o futuro fantasiado (manufactured) pelos utopistas. O professor Brentano de Munich relata que em 1869 Marx escrevia ao amigo Beesly (que havia publicado um artigo sobre o futuro da classe trabalhadora) expressando que até então ele o tinha considerado como um inglês revolucinário, mas que agora ele o via como um reacionário - pois, ele afirmou, "o homem que faz programa para o futuro é um reacionário." (35) Ele considerava que o proletariado não tinha necessidade de tomar lições dos eruditos inventores de soluções de problemas sociais, mas simplesmente se apropriar da produção onde o capitalismo a havia deixado. Não há necessidade de programar o futuro; os programas estão já feitos nas oficinas. A ideia continuidade tecnológica domina o todo da posição marxista.
         A experiência obtida nas greves nos conduz a concepção idêntica a de Marx. Os trabalhadores que depõe suas ferramentas não se dirigem aos seus empregadores com esquemas para uma melhor organização do tra balho, e não oferecem qualquer assistência à administração dos seus negócios; resumindo, utopias não devem ter lugar em conflitos econômicos. Jaurès e seus amigos estão bem conscientes de que é um fortíssimo argumento contra suas próprias ideias sobre como o Socialismo deve ser realizado; até agora eles gostariam  de ter fragmantos dos programas industriais elaborados(manufactured) por erutidos sociólogos e aceitos pelos trabalhadores introduzidos nas negociações de greve; eles gostariam de ver a criação do que designam parlamentarismo industrial  com, exatamente como no caso do parlamentarismo político ocorreria, as massas que são guiadas por um lado, e os demagogos a mostrar-lhes o caminho. Este poderia ser o estágio de aprendizado do seu fingido Socialismo, e poderia começar imediatamente.
         Com a greve geral todas essas bonitas coisas  desaparecem. a revolução aparece como uma revolta, pura e simplesmente, e não há mais espaço reservado para sociólogos, para gente da moda a favor de reformas sociais, a para intelectuais que abraçam a profissão de pensar pelo proletariado.

       C - O Socialismo tem sempre inspirado terror por causa do enorme fator  de desconhecido que contem; as pessoas sentem que uma transformação dessa jaez não permite voltar atrás. Os utopistas tem usado toda sua arte literária na tentativa de driblar a ansiedade com imagens do futuro tão encantadoras que o temor pode ser banido; mas quanto mais acumulam belas promessas, mais as pessoas cautas suspeitam de trapaças, e desse modo não estão de todo errados, pois os utopistas levam os trabalhadores a desastres, tirania e estupidez, quando lhes dão ouvidos.
         Mas estava firmemente convencido de que a revolução social de que ele falava constituiria uma transformação irrevogável, e iria marcar uma separação absoluta entre duas eras históricas; ele frequentemente retornava a essa ideia, e Engel tentou mostrar, por meio de imagens (images) que eram algo bombásticas, como a emancipação econômica deveria ser o ponto de partida de uma era sem relações com o passado. Rejeitando toda utopia, estes criadores do moderno socialismo enunciaram a todos os recursos com os quais seus predecessores apresentaram o prognóstico de uma grande revolução menos formidável; mas por mais forte que as expressões que utilizaram pudesse ter sido, os efeitos que produziram ainda são muito inferiores àqueles produzidos pela evocação da greve geral. Essa concepção torna impossível para nós ignorar o fato de que uma onda irresistível passará sobre a antiga civilização.
         Há algo de realmente terrível nisso tudo; mas creio que é realmente essencial que essa característica do Socialismo seja bem enfatizada se quisermos que ele conserve seu pleno valor educacional. Os Socialistas tem que se convencer de que o trabalho a que estão devotados é sério, formidável e sublime. É só desse modo que estarão aptos a fazer os inumeráveis sacrifícios impostos por uma propaganda, que não lhes proporciona honra, nem vantagens, nem mesmo satisfação intelectual imediata. Mesmo se o único resultado da ideia da greve geral fosse fazer a concepção Socialista mais heróica, ela deveria ser vista como tendo um valor incalculável.
        As semelhanças que tenho estabelecido entre o marxismo e a greve geral podem ser levadas ainda além e mais profundamente; se até agora puderam ser visadas algo superficialmente, é porque estivemos seduzidos mais pela forma das coisas do que pelo conteúdo; grande número de pessoas tem enorme dificuldade em crer que exista algum paralelismo entre o hegelianismo e as construções feitas por homens inteiramente  desprovidos de alta cultura. Marx adquiriu na Alemanha um gosto pelas fórmulas muito concisas, e esss fórmulas eram tão admiravelmente adequads às condições em que ele produzia que fea naturalmente vário uso delas. Quando ele escreveu, não havia ainda acontecido nenhuma das grandes e numerosas greves que o teriam capacitado a falar com um conhecimento minucioso dos meios  pelos quais o proletariado pode se preparar para a revolução. Essa ausência de conhecimento ganho pela experiência muito embaraçou o pensamento de Marx; ele evitou o uso de fórmulas demasiado precisas que teriam tido o inconveniente de dar algum tipo de sanção às instituições existentes, que lhe pareciam sem valor; ele estava porém feliz por poder encontrar na escrita acadêmica alemã o uso da linguagem abstrata que lhe permitia evitar toda discussão de detalhe (36).
         Provavelmente não há melhor prova do gênio de Marx do que a concordância notável que se pode constatar entre suas perspectivas e a doutrina que o sindicalismo revolucinário tem presentemente construído lenta e laboriosamente, sempre afirmando estritamente a tática grevista.
  
       III)

        Por algum tempo ainda, a concepção da greve geral terá considerável dificuldade para ser aclimatada em círculos não especialmente dominados pela tática grevista. Creio ser útil nesse ponto indagar dos motivos que explicariam a repugnância sentida por tantas pessoas inteligentes e sinceras que estão perturbadas pela novidade do ponto de vista do sindicalismo. Todos os membros da nova escola sabem que necessitm fazer grandes esforços para sobrepujar os preconceitos de sua educação, deixar de lado as associações de ideias que espontaneamente aflorem à sua mente, e raciocinar conforme premissas que de modo nenhum correspondem aquelas que lhes foram ensinadas.
       Durante o século dezenove existiu uma incrível ingenuidade científica que era diretamente causada pelas ilusões que haviam produzido tanta excitação pelos fins do século dezoito (37). Uma vez que os astrônomos haviam conseguido calcular as tábuas da lua, acreditou-se que o objetivo de toca ciência era prever o futuro com acurácia; uma vez que Le Verrier era capaz de indicar a provável posição do planeta Netuno - que nunca havia ainda sido visto e a que se atribuía distúrbios nos planetas observáveis - acreditou-se que  ciência podia remediar os defeitos da sociedade, e indicar que medidas poderiam para obter o desaparecimento das coisas desagradáveis deste mundo. Pode-se afirmar que esta era a concepção burgues (midle-class) da ciência; certamente ela corresponde bem estreitamente à atitude mental daqueles capitalistas que, embora ignorantes das aperfeiçoadas aparelhagens de suas oficinas, mesmo assim dirigiam a indústria, e sempre encontravam engenhosos inventores para ajudá-los a sairem de suas dificuldades. Pois a ciência da classe média é um moinho que produz soluções para todos os problemas com que nos confrontamos (38); a ciência não é considerada um meio a perfeiçoado de conhecimento, mas apenas como receita para obter vantagens indubitáveis (39).
         Eu tenho afirmado que Marx rejeitava todas as tentativas de determinar as condições da sociedade futura; nunca se o enfatiza suficientemente o quanto ele sobrepujou os limites da ciência burguesa. A doutrina da greve geral também repudia essa ciência, e vários professores acusam a nova escola de só ter ideias negativas; o seu próprio objetivo, por outro lado, é o nobre desejo de construir a felicidade universal. Os líderes da social democracia, parece-me, não foram verdadeiramente marxistas nesse ponto; há alguns anos atrás, kautsky escreveu um prefácio de uma utopia algo burlesca (40).
         Creio que entre os motivos que levaram Bernestein a romper com os velhos amigos devem ser imputados ao horror que ele sentia por utopias. Se Bernstein tivesse vivido na França, a conhecido nosso sindicalismo revolucionário, teria logo percebido que este encontra-se no verdadeiro caminho de Marx; Mas nem na Inglaterra, nem na Alemanha, poderia ele encontrar um movimento da classe trabalhadora que o pudesse guiar; pretendendo permanecer ligado à realidde, como Marx fez, ele pensava ser melhor pregar a política da reforma social, contendo fins práticos, do que convencer-se a dormir sob a música das belas frases sobre a felicidade da humanidade futura.
        Os cultores dessa pseudo-ciência inútil, nunca se deixaram deter por objeções, legítimas nesse caso, de que seus métodos de cálculo eram inteiramente inadequados aos seus meios de determinação. Sua concepção de ciência, sendo derivada da astronomia, supunha que tudo podia ser expresso em leis matemáticas. Evidentemente não há leis dessa espécie em sociologia; mas as pessoas são sempre suscetívies a analogias relacionadas a formas de expressão; supunha-se que um alto grau de perfeição havia sido atingido, e que algo já havia sido feito pela ciência quando - começando por uns poucos princípios não ofensivos ao senso comum, que pareciam confirmados por umas poucas experiências comuns - seria possível apresentar uma doutrina de um modo simples, claro, e dedutivo. Essa assim chamada ciência é simplesmente conversa fiada.
            Os utopistas pontificam na arte de expor coerente a tais preconceitos; quanto mais suas explanações satisfaze os requisitos de um livro didático, mais convincentes eles pensam que foram as suas invenções. Estou certo de que a verdade é o contrário de acreditam,  e que devemos descrer nos projetos de reforma social tanto mais quando aparentam resolver satisfatoriamene as dificuldades.
            Eu gostaria de exanubar aqui, bem sucintamente, algumas das ilusões que surgem da assim designada cienciazinha (42), que acredita que assim que se obtem a claridade de exposição, a verdade foi cabalmente atingida. Essa cienciazinha tem contribuido muito para produzir crises no marxismo, e todos os dias ouvimos a nova escola sendo a cusada de comprazer-se nas obscuridades de que Marx foi tão frequentemente acuado, enquanto socialistas franceses e belgas, pelo contrário...
     Provavelmente o melhor modo de dar uma ideia acurada do erro cometido por esses falsos cientistas contra quem a nova escola está promovendo a guerra será examinar as características gerais de algums fenômenos sociais, e daí chegar a algumas realizções mentais começando pelas mais altas.
         A. (1) Os positivistas, que representam de modo eminente, mediocridade, orgulho e pedantaria, tem pregado que a filosofia precisa se desvanecer perante sua ciência; mas a filosofia não está morta, a obteve novo e vigoroso alento de vida graças a Bergson, que longe de pretender reduzir tudo à ciência, reclamou para a filosofia o direito de proceder de um modo bem oposto ao que utilizam os cientistas. Pode-se dizer que a metafísica pode reaver o terreno perdido por demonstrar ao homem a ilusão das assim chamadas soluções científicas, e por fazer a mente retornar às misteriosas regiões que a cienciazinha exclui. O positivismo é ainda admirado por uns poucos belgas, os empregadores do Gabinete do Trabalho (Office du Travail) (43) e o General André, (44) mas essas são pessoas que contam pouco no mundo do pensamento.
     (2) As religiões não parecem a ponto de desaparecer. O protestantismo liberal está morrendo por ter tentado dar uma explicação cabalmente racional da teologia cristã. Augusto Comte manufaturou uma caritatura do catolocismo, na qual reteve apenas a máquina hierárquica e disciplinar da igreja; sua tentativa oteve sucesso apenas entre as pessoas que gostam de rir da simplicidade dos que foram por ele iludidos. No curso do século dezenove, o catolicismo recobrou forças a um grau extraordinário porque não abandonou nada; ele ganhou terreno ao cultivar círculos onde se zombava do racionalismo que, como a universidade, estava antes na moda. (45)
      (3) A velha asserção dos nossos pais, de terem criado a ciência da arte ou até mesmo que descobriam o mundo da arte de um modo tão adequado que o leitor pode obter de qualquer livro uma apreciação estética tão exata quando de um quadro (picture) ou um estária, vemos hoje em dia como um perfeito exemplo de pedantismo. Os esforços de Taine na direação primeiro mencionada  são bastante interessantes, mas só no interesse da história das várias escolas. Seu método não nos fornece qualquer informação útil sobre as obras em si mesmas. Assim como as descrições, só conserva utilidade para obras que por si são de pouco valor estético, e que pertencem ao que é por vezes chamada decoração literária (literary painting). A mais pobre fotografia do Paternon tem centenas de vezes mais informação que um volume devotado a glorificar as maravilhas do momumento; parece-me que a famosa Prière sur l'Acropole, tão louvada como uma das melhores passagens de Renas, é bem como um notável exemplo de retórica, e que mais  faz tornar a arte grega ininteligível a nós do que nos fazer admirar o Paternon.  Apesar de todo o seu entusiasmo por Diderot (que é as vezes cômico e  expresso desarrazoadamente), Joseph  Reinach foi obrigado a registrar (to acknowledge that) ao seu heroi faltava um sentido artístico em seus famosos Salons, porque Diderot apreciava mais do que tudo os quadros que ofereciam possibilidades de dissertações literárias, (46) e Brunetière poderia dizer que os Salons de Diderot eram corrupção da crítica, porque neles se discutiam obras de arte comos e fossem livros (47).
          A impotência do discurso é devido ao fato de que a arte florece melhor no mistério, à meia-luz e esboços indeterminados; quanto mais o discurso é metódico e perfeito, mais parece eliminar tudo que caracteriza uma obra-prima; reduz a obra-prima às proporções de um produto acadêmico.
         Como um resultado desse exame preliminar das três maiores realizações da mente, estamos proostos a crer que é possívelo distinguir em todo corpo complexo do saber uma região clara e uma escura, e dizer que esta última é provavelmente a mais importante. O erro feito por pessoas superficiais consiste na asserção de que essa segunda parte devia desaparecer com o progresso do iluminismo, e que eventualmente tudo será explicado racionalmente em termos da cienciazinha. Esse erro é particularmente revoltante com relação à arte, e, acima de tudo, provavelmente, com relação à pintura moderna, que busca mais e mais obter combinações de sombras a que antes não era concedida qualquer atenção devido à sua falta de estabilidade e da dificuldade de dar conta delas discursivamente (48).
      B. (1) Em ética, a parte que pode ser facilmente expressa, por exposições claramente razoáveis, é a que se refere às relações equitativas entre os homens; ela contem máximas que são encontradas em várias civilizações; consequentemente por um longo tempo se tem acreditdo que um résumé desses preceitos podem ter base em uma moralidade natural aplicável ao todo da humanidade. A parte obscura da moralidade é a que se refere aos relacionamentos sexuais, e essa parte não é facilmente expressa em fórmulas; para entender isso a contento você precisa ter vivido em um país por um grande número de anos. Esta é, além disso, a parte fundamental; quando se a entende, toda apsicologia do povo se torna conhecida; a suposta unifomidade do primeiro sistema na realidde esconde inúmeras diferenças; máximas quase idênticas podem corresponder a aplicações muito diversas; sua clareza era apenas ilusão.
         (2) Em legislação, tudos veem imediatamente que a lei que regula contratos e d ívidas constitui a parte óbvia, que e chamada científica; aqui de novo há grande uniformidade nas regras adotadas por povos diferentes, e tem se acreditado que é eminentemente desejável traçar um código comum fundado numa revisão racional dos que já existem, mas na prática mais uma vez se descobre que, em diferentes países, as cortes geralmente associam significados diferentes a estes supostos princípios comuns; eis porque há algo de individual e particular em cada máxima.
       A misteriosa região é a família, sua influência em todas as relações sociais. Le Play ficou grandemente impressionado por uma opinião de Tocqueville a propósito: "Estou espantado", afirmou este grande pensador, "de que os publicistas antigos e modernos  não tenham atribuído às leis da herança uma grande influência no progresso dos negócios humanos. Essas leis, é verdade, se referem a negócios civis  privados, mas deveriam ser postas à testa de todas as insituições políticas, uma vez que elas tem incrível influência sobre o estado social dos povos, do qual as leis políticas são apenas a expressão (49). Essa observação governou todas as pesquisas de Le Play.
           Essa dividsão da legislação em regiões clara e escura tem uma consequência curiosa: é muito raro pessoas que não são membros de profissões legais entretenham alguma discussão sobre equidade; eles sabem que e necessário ter um conhecimento íntimo de certas regras da lei, a fim de se estar poder argumentar sobre tais questões. Um estranho corre o risco de parecer ridículo aventurando-se a dar uma opinião; mas em questões de divórcio, de autoridade patriarcal, de herança, todo homem de letras se crê tão bem informado quanto o melhor advogado, porque nessas regiões obscuras não há princípios definidos, nem deduções regulares.
        (3) Em economia, a mesma distinção é, provavelmente, ainda mais evidente;  questões relativas à troca (exchange) podem ser facilmente expostas; os méodos de troca são muito parecidos em diferentes países, e é difícil que paradoxos realmente violentos sejam feitos a propósito da circulação monetária. Por outro lado, tudo o que é relativo à produção apresenta uma complexidade por vezes inextrincável; é na produção que as tradições locais são mais fortemente mantidas; utopias ridículas a propósito da produção podem ser inventadas indefinidamente sem incomodar o senso comum dos leitores. Ninguém nega que a produção é a parte fundamental de qualquer sistema econômico; é uma verdade que tem grande papel no marxismo, e que tem sido reconhecida até por autores que se mostram inábeis para entender sua importância. (50)
         C. Vamos agora examinar como as assembléias parlamentares funcionam. Por um longo tempo acreditou-se que sua principal função era estabelecer quais as mais importantes questões da organização s ocial, e, sobretudo, as relacionadas à constituição. Em algumas questões é possível proceder dos primeiros princípios por meio de deudução até conclusões claras e concisas. Nosos avoengos pontificavam nesse tipo de artumentação escolástica, que forma a parte luminosa das discussões políticas.  Agora que as questões da constituição raramente são sequer discutidas, grandes leis ainda dão oportunidade a belos torneios oratórios; assim na questão da separação de igreja e Estado, os expositores profissionais dos primeiros princípios foram ouvidos e até aplaudidos; é de opinião geral que os debates raramente alcançaram tão alto nível, e isso porque a questão por si  mesma levava à discussão acadêmica. Mas quando, como ocorre o mais frequentemente, as leis comerciais (commercial) ou as medidas sociais são discutidas, então se vê a estupidez dos nossos representantes atuando com todo o seu esplendor; ministros, presidenes, ou raportteurs de commissions, (51) especialists, competem uns com os outros em demonstração de estupidez; a razão disso é que agora lida-se com matéria econômica, em que o espírito não é amiúde guiado por regras simples. a fim de se ter opinião de valor na consideração dessa matéria, é preciso que tenhamos alguma familiaridade prática com ela, e nossos honoráveis representantes não podem ser considerados possuir esse tipo de ocnhecimento. Entre eles pode-se encontrar muitos expoentes da cienciazinha; em 5 de julho, 1905, um conhecido epsecialista em doenças venéreas (32) declarou que havia estudado econmia política, tendo "uma certa desconfiança dessa ciência conjuntural." Devemos sem dúvida entender daí que é mais difícil argumentor sobre produção do que sobre o diagnóstico da sífilis.
        A cienciazinha engendrou um número fabuloso de sofismas que estão continuamente sobrevndo, e que caem muito bem no meio de pessoas que possuem a cultura estúpida e medíocre distrituída pela universidade. Esses sofismas consistem em por coisas muito diferentes no mesmo plano por amor à simplicidade lógica; assim a moralidade sexual é reduzida a relações equitativas entre partes contratantes, o código familiar às que regulam dívidas e acordos, e a produção à troca.  
         Pelo fato de que, em praticamente todo país em qualquer época, o Estado é encarregado de regular a circulação, tanto da moeda (money) quando bancária (banknotes), ou de promulgar um sistema legal de medidas, não se segue de modo algum que haverá a mesma vantagem em confiar ao Estado, pro mero amor à uniformidade, a administração das grandes empresas; ainda assim esse argumento é um dos que apelam mais fortemente a menos estudantes médicos e enferemeiros da Escola da Lei.  Estou convencido de que Jaurès até hoje continua incapaz de compreender porque a indústria foi abandonada por legisladores preguiçosos às tendências anárquicas dos egotistas; se a produção é realmente a base de tudo, como Marx afirmou, é um crime não colocá-la em primeiro lugar, não submetê-la a uma grande ação legislativa, concebida em mesmas linhas do que aquelas partes da legislação que devem sua clreza ao seu caráter abstrato, i.e, não  ordená-la e arrumá-la a ponto de repousar em grandes princípios análogos aos que se aludem quando são discutidas leis constitucionais.           
         O socialismo é necessariamente muito obscuro, uma vez que lida com a produção, i.e, com a parte mais misteriosa da ação humana, e uma vez que se propõe operar uma transformação radical nessa região impossível de se descrever com a clareza que encontrada em regiões mais superficiais.  Nenhum esforço de pensamento, nenhum progresso do conhecimento, nenhuma indução racional jamais dissipará o mistério que envolve o socialismo; e é proque a filosofia de Marx reconheceu plenamente essa característica do Socialismo que obteve o direito de servir como o ponto de partida da investigação socialista.
          Mas temos que logo acrescentar que essa obscuridade repousa apenas na linguagem com que tentamos descrever o método da realização do Socialismo; essa obscuridade deve ser dita apenas escolástica; ela afinal não nos impede de pintar o movimento proletário de um modo que é exato, completo, e certeiro, e isso pode ser obtido com a ajuda daquela poderosa construção que a mente proletária conceb eu no curso do conflito social, e que é chamada "greve geral". Nós jamais devemos esquecer que  a perfeição desse método de representação, desapareceria num momento, se qualquer tentativa for feita de resolver a greve geral em alguma súmula de detalhes históricos; a greve geral tem que ser tomada como um todo e sem divisão, e a passagem do capitalismo ao Socialismo concebida como uma catástrofe, cujo desenvolvimento desorienta a descrição.        
            Os professores da cienciazinha  são realmente difíceis de satisfazer. Eles asseveram muito ruidosamente  que irão admitir ao pensamento abstrações análogas a que utilizam nas ciências dedutiva: de fato, essa e uma regra insuficiente para os propósitos da ação, pois não fazemos nada de grande sem a ajuda de imagens em cores quentes e bem definidas, que absorvam toda a nossa atenção; agora, é possível achar alguma coisa mais satisfatória desse ponto de vista do que a greve geral?  Mas, replicam os professores, devemos contar apenas com aquelas realidades que são dadas na experiência: não é, pois, o quadro (picture) da greve geral produzido por tendências  obtidas diretametne por observação do movimento revolucionário?  É alguma obra da razão pura, produzida por cientistas interinos tentando solver o problema social conforme as regras da lógica? É alguma arbitrariedade? Não é, inversamente, o produto espontâneo análogo aqueles outros, com que os estudantes de história lidam em períodos de ação? Eles insistem, e dizem que o homem não deve se deixar levar por impulsos sem submetê-los ao controle de sua inteligência, cujos direitos não são desafiáveis; ninguém sonha disputar com eles; é claro, esse quadro da greve geral deve ser testado, e é o que acima  venho tentando fazer; mas o espírito crítico não consiste em substituir o dado histórico pelo charlatanismo de uma falsa ciência.   
        Se desejamos criticar a base da ideia da greve geral, o ataque tem que ser dirigido contra as tendências revolucionárias que ela agrupa, e mostra em ação; por nenhum outro método que mereça atenção você pode esperar provar aos revolucionários que eles estão errados ao devotar todas as suas energias à causa do socialismo, e que seus interesses reais podem ser melhor servidos se forem políticos; eles já conhecem tudo isso há muito tempo, e sua escolha já foi feita; uma vez que eles não adotaram uma perspectiva utilitarista, qualquer conselho que você puder dar será em vão.
        

           Estamos perfeitamente conscientes de que os historiadores do futuro estão fadados a descobrir que trabalhamos sob inúmeras ilusões, desde que eles olham atrás de si um mundo acabado. Nós, por outro lado, temos que agir, e ninguém pode nos dizer hoje o que os historiadores saberão; ninguém pode nos prover de meios de modificar nossas imagens motoras de modo a evitarmos suas críticas.
        Nossa situação parece um pouco com a dos físicos que trabalham com cálculos imensos, baseados em teorias que não estão destinadas a durar para sempre. Hoje em dia nós já abandonamos todas as esperanças de descobrir uma ciência completa da natureza; o espetáculo das modernas revoluções científicas não é encorajador para os cientistas, e não há dúvida de que levou muitos, bastante naturalmente, a proclamar a bancarrota da ciência, porém, ainda assim, estaríamos loucos se fôssemos entregar a administração da  indústria a feiticeiros, médiuns ou operadores de maravilhas. O filósofo que não busca fazer aplicações práticas de suas teorias pode tomar a perspectiva dos futuros historiadores da ciência, e por aí questionar o caráter absoluto das teses científicas de hoje; mas ele está tão ignorante como o físico de hoje quando indagado sobre como corrigir a explicação dada por este último; devemos portanto nos refugiar no ceticismo?       
             Hoje em dia nenhum filósofo digno de consideração aceita a posição cética; seu grande objetivo, inversamente, é provar a legitimidade de uma ciência que, contudo, não assevera conhecer a real natureza das coisas, confinando-se a descobrir relações que podem ser utilizadas para propósitos práticos. É porque  a sociologia está nas mãos de pessoas incapazes de qualquer raciocínio filosófico que se tornou possível sermos atacados (em nome da cienciazinha) por nos contentar com métodos fundados em leis que uma análise realmente completa revela como fundamentais na gênese da ação, e que se revelam a nós em todos os grandes movimentos históricos.
        Proceder cientificamente significa, primeiramente, saber que forças existem no mundo, e em seguida avaliar até onde podemos utilizá-las, raciocinando pela experiência. Eis porque afirmei que, ao aceitar a ideia da greve geral, mesmo sabendo que é um mito nós procedemos exatamente como o físico moderno que tem confiança completa em sua ciência, ainda que ele saibe que o futuro a verá como antiquada. É ele quem realmente possui o espírito científico, enquanto nossos críticos perderam contato tanto com a ciêncai moderna quando com a filosofia moderna; e tendo provado isso, estamos agora espiritualmente bem satisfeitos.
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        O MARXISMO COMO MITO E A VIOLÊNCIA MORALIZADORA : um estudo sobre  George Sorel
    
                                Eliane Colchete

1) Pessimismo, anarquia e catástrofe

         Assim como Althusser tanto fez para desfazer o equívoco de um Marx puramente empirista, atento apenas a fatos e carente de conceito, com relação a Sorel deveríamos começar pela sua ênfase na epistemologia. Como um pensador da ciência do seu tempo, e lidando com o problema mais geral do conhecimento, Sorel repôs a importância da filosofia a partir de sua reiterada fidelidade a Bergson. Porém a leitura atenta dos seus escritos sobre Bergson mostra que ele o utilizou menos pela ontologia do que por suas interpretações de pontos capitais em áreas científicas precisas, como a psicologia.
          As relações entre teoria e prática é que não são unívocas na história das ideias, e se quiséssemos proceder como Althusser, uma crítica da ingenuidade da "experiência" imediata, teríamos antes que esclarecer tanto o que nós mesmos entendemos por isso como o que o pensador que nos apressamos a caracterizar como um recusante dela definia a propósito.
         No entanto essa não é uma tarefa fácil, na maioria das vezes, e Sorel não constitui exceção. Além disso, o cerne de qualquer estudo sobre sua obra deveria ser capaz de tornar assentada a sua importância histórica, singularmente desapercebida em relação à sua magnitude, que se afirmou porém na prática e na teoria dessa região que comumente designamos política. Uma designação que a interligação de ambas na sua biografia visou desacreditar por inteiro, e justamente porque o político conservava idealizações que o puro ativismo da greve geral devia de todo eliminar.      
         Neil MacIness, seu biógrafo em artigo no volume "Os precursores das ciências sociais" (Raison, Timothy. org. Rio de Janeiro, Zahar, 1971), não ajuda muito a desfazer a complexidade. É bastante útil para situar a produção de Sorel na movimentação das correntes da época, e entender algo do seu percurso pessoal. Porém não fornece algum sentido que, por um princípio norteador ou por uma sucessão de fases, iria explicar de algum modo a incrível profusão de grupos que se beneficiaram de sua obra ainda que tenham sido de credos os mais variados e antagônicos. Assim apenas aumenta a complexidade do nosso problema que consiste em apreender a obra de Sorel como aquilo mesmo que ele tanto afirmou ser o cerne do que estava em seu pensamento: um todo não analisável, uma intuição não dividida em partes, ainda que não saibamos a princípio se ela é dada de início ou auto-intuída somente em devir.
          Para lidar com a complexidade da tarefa, creio ser favorável começar pelo coração da mensagem, o endereçamento revolucionário do marxismo soreliano. O que instala a complexidade propriamente. A meu ver, independente das grandes vozes de Lenin e Rosa Luxemburgo, Sorel é provavelmente o primeiro grande "marxista" - isto é, vindo nas pegadas dos próprios Marx e Engels e assim estabelecendo um mundo histórico de ideias marxistas. Isso porque seu ativismo revolucionário como síntese de toda a doutrina da luta de classes não se desdobra porém num ativismo histórico real, ao inverso daqueles nomes mais célebres. Ele inaugura o marxismo nesse mundo histórico de ideias.
           A possibilidade desse feito não é dissociada da própria enformação da mensagem soreliana, em termos de sua interpretação sintética da luta de classes e consequentemente do próprio marxismo em termos de mito. Este não deixa qualquer espaço ao prosseguimento das práticas políticas e de guerra de Estados que se pudesse aprender ao longo da história. Por um lado, lida como história da luta de classes ela apenas informaria o presente da história secular burguesa e de suas instituições inclusive de guerra. Por outro lado, o mito interrompe a história - sendo nominalmente o contrário dela assim como o estático o é do dinâmico - e, portanto, já não poderia informar um partido marxista, ou qualquer prática organizada de política marxista.  O marxismo como mito, a este obriga a pensar.
             Além de tudo isso, temos que conservar em mente aquilo que o próprio Sorel advertiu, ao lembrar aos seus futuros estudiosos a relatividade da situação histórica dele mesmo em seu passado. Conservar portanto em mente o fato de estarmos nós mesmos situados de um certo modo relativamente ao mito e ao marxismo. Esse modo sendo presente não exime Sorel de relações consigo, se entre as instâncias elementares  se estende o fio da história.
         O mito, pois, entre o passado e o futuro: o passado em relação à ciência que o estabeleceu bergson-sorelianamente como psicologia profunda da humanidade. O futuro em relação ao momento dessa ciência e desse estabelecimento, é o hoje em que o marxismo já se considera mito nessa outra acepção de ciência ultrapassada dos fatos sociais. Pelo contraste vemos, pois, que há algo de errado na assunção histórica do presente, com relação àquilo que passou. Se o marxismo se tornou mito muito antes, e num sentido muito oposto, do que agora o presente fez dele.
     Sorel pensa pois cientificamente o mito como a verdade da psicologia profunda do homem - o que ele revela em sua carta a Daniel Halevy, inserida na edição citada.  O mito é todo não analisável porque coextensivo à ação que ele ordena, orientando-a de um modo não exterior a ela mesma, mas antes dotando-a intrinsecamente do seu sentido. Mas creio que essa totalização é feita ao ver de Sorel, na ciência do mito e não nele mesmo enquanto atuando daquele modo que ela supõe que ele faz. Vivido em termos do seu conteúdo, por aqueles que não necessariamente o generalizam, o mito não totaliza, antes preside o devir intotalizável assim como uma ação realiza-se na abertura da incerteza do porvir intimamente relacionado, embora, com o contexto não incerto em que ela tem sentido.  
           A conversão do marxismo em  mito não é uma ação extrínseca, ou a fabricação de um novo mito, uma narrativa histórico-heroica. É a interpretação do que já está acontecendo quando alguém se dispõe a agir como "proletário" - isto é, dentro de uma concepção que ordena o mundo de um certo modo, "para si" relativamente aos sujeitos atuantes nesse mundo conforme a terminologia de Hegel.
         Para assim interpretar, Sorel já precisa ter começado por romper com a antropologia  positivista, que reduzia o homem ao meio e o progresso psicossocial ao determinismo do progresso técnico. Essa ruptura estava ocorrendo desde os tempos de Nietzsche, devido não só à crescente desincompatibilização das descobertas científicas com a visão globalizante da razão cotidiana. Mas, localizadamente,  devido ao impacto de informações que vinham se acumulando a partir da entrada da Europa na corrida neocolonial afro-asiática acerca das sociedades primitivas.
            Portanto agora, na imanência da produção soreliana, não resta unidade alguma entre natureza e cultura. Mas como McInnes sublinha oportunamente, isso significa o oposto de colocar do lado da primeira a determinação dos fatos, e da segunda o arbítrio dos sonhos. Às vésperas da revolução quântica, Sorel afirmava justamente o contrário. A natureza como caos incerto, reino do acaso onde as leis não preponderam devido a mudanças contínuas, e, inversamente, a cultura como produção racional de constantes formais - a geometria, por exemplo, como ciência arquitetônica e não da natureza, uma vez que suas figuras e proporções seriam apenas criações da humanidade.
            Resta o enigma dessa cultura soreliana, ao mesmo tempo produto da psicologia profunda do todo da visão de mundo, e cindida intimamente entre a ciência analítica e o mito. Aparentemente o que Sorel visa na filosofia é a solução dessa aporia. O mito também é uma ordenação regida por leis ou constantes formais. Em todo caso, a epistemologia sorealiana estaria acompanhando aquelas que como em Nietzsche não dissociam o conceito do campo prático que ele vem a ordenar. 
        Os termos do mito soreliano, aquele em que Sorel pôde compactar a realidade da ação histórica na sociedade industrial, são o marxismo reduzido à conflagração da greve geral como síntese da teoria social e do ativismo. A síntese produz, pois,  uma ação, a greve geral, ação que deve ser classificada como "violenta", isto é, nessa terminologia soreliana, oposta à ação qualquer classificável como "política".
            Sorel insistirá, pois, no capítulo V, na irredutibilidade da greve "política" relativamente à que ele prega como geral ou proletária.
             Ali persegue a solvência de qualquer legitimação possível para o "político" visado como desempenho concreto de uma profissão. Cita vários exemplos da cena da época, mostrando como os políticos mesmo considerados de esquerda, apenas traem as esperanças neles depositadas, defraudando constantemente os trabalhadores. E, sobretudo, como tais políticos estão ávidos por se aproveitarem das organizações grevistas dos trabalhadores, para, apropriando-se delas depois, fazerem como se houvessem sido produzidas por eles mesmos ou seu partido, destruindo assim, porém, o componente realmente proletário da greve, inconciliável com o interesse do sistema burguês. 
            Por esse capítulo em particular, podemos suspeitar que muito da dificuldade de entender realmente que efeito Sorel produz no campo do enfrentamento dos movimentos ativistas, uma vez que ele despertou entusiasmos em frentes tão opostas e que ele mesmo fez sucessivamente opções extremamente variadas, pode ser reduzida se visamos a questão pelo viés das suas próprias opções primeiro, e, depois, as relacionarmos aos fatos concretos da época, e não ao modo de consequências tiradas de princípios.
          À frente nos demoraremos mais na consideração histórico-biográfica dessas opções sorelianas e dos círculos que influenciou, o que McIness informa bem, porém aqui relacionando à questão filosoficamente mais profunda, do contraste de opções como o marxismo e o proletariado por um lado, com a orientação católica-conservadora do bergsonismo por outro lado.
          Por ora, tratando-se de compreender a orientação do sorelianismo revolucionário, é importante considerar que sua oposição em nível de ação, da "política" e do "violência", reproduz a teoria social marxista que define um campo de conflito entre dois lados ou agências históricas. A burguesia e o proletariado - ambos como desígnios de sua ação. Assim de fato o político é um termo paralógico, uma falácia, uma vez que  pertencendo à ideologia burguesa, pretende que ela não age ou pode não agir violentamente, isto é, como antagonista numa guerra declarada a uma outra parte.
       Ao estipular dois tipos de ação, a política e a violenta, Sorel está na verdade definindo algo mais do que duas formas de ação equivalentes como dois meios de se chegar ao mesmo objetivo. Os objetivos não são o mesmo, em absoluto. Por um lado, o do político, há desumanidade na acepção da violência primitiva, na acepção de desencadeadora da guerra que cinde em dois o campo social.
          A violência brutal da burguesia se desencadeou uma vez visando a brutal sujeição e escravização desta outra parte da humanidade que ela pretende expoliar do que já lhe forneceu a própria adaptação ao meio e o seu próprio engenho.
        A violência real da burguesia, apropriando-se do que essa parte da humanidade já obteve por si mesma, e, em seguida, reduzindo-a a mão de obra cativa para lucro exclusivo da burguesia,  foi em seguida discursivizada numa organização institucional designada "política". Mas esta é só isso, a violência organizada contra a classe proletária - isto é, a margem da população a ser continuamente proletarizada. O cuidado de Sorel em não deixar qualquer interstício para ver-se restaurar nocionalmente o político na (pseudo)-inteligibilidade da legitimação, parece-me muito contrastável ao de Gramsci em fazer concordar na ideologia a dominação burguesa e o consentimento do proletariado.
          Em tudo isso, vemos renascer a  surpreendente atualidade de Sorel. O neoliberalismo econômico restitui as condições mais notórias do capitalismo como guerra de classes, ao contrário da via que seguiram aqueles que pela orientação da sociologia organizaram o Welfare State.
             Não resta, pela penetração info-midiática da mercatorização universal, qualquer meio de se vislumbrar o rosto da burguesia como outra coisa que assassina, descaradamente ladra, prostituída- pedófila, etc. - tudo o que lhe serve de meio para apaziguar o ardente desejo de dominar ao nível da escravização mais abjeta, uma outra parte da sociedade a que ela possa reduzir como proletariado, redução que perpetra sempre com maior voracidade e em velocidade crescente, abrangendo portanto maior número de vítimas e acarretando níveis maiores de miserabilização sub-humana. Nenhum de nós que conheceu a vigência do Welfare State teria previsto isso há menos de duas décadas, e ainda há quem relute a aceitar o que não obstante enfrenta expressamente todos os dias. A própria legalidade nem é mais o seu terreno privilegiado de luta, mas sim o crime às claras e a neutralização das instâncias de governo e lei.  
           Não obstante minha interpretação aqui ter mudado um pouco - porque até o presente estudo eu vinha supondo Sorel e Gramsci como um pouco "farinha do mesmo saco" - ainda não creio que se deva reduzir a organização do Welfare State à simples epifenômeno da guerra fria, a providência de um Ocidente escandalizado e temeroso das consequências da Revolução Soviética, que, portanto, tentava compensar ao máximo a manutenção da dominação do capital. A meu ver, há um terceiro termo, entre a burguesia e o proletariado como componentes voluntário e forçado da guerra de classes. Esse termo seria a sociedade civil, que para Sorel é impensável a partir da mesma guerra.
              O problema aqui é que não podemos criticar diretamente Sorel pela abstração dessa instância - cuja realidade é demonstrada pela crescente problematização da ideologia pós-classista a partir da inclusão na sociologia do conflito de problemas como de gênero sexual e etnia. Ou seja, por algo que por sua vez também não pode ser reduzido a epifenômeno da acomodação social do Welfare State. A crítica é inviável porque Sorel cortou previamente o metarrelato histórico, o determinismo que permitiria explicar todas as sociedades e suas instituições como peças na única e mesma luta de classes. Ele não explica, por exemplo,  a revolução cristã antiga como luta de classes, mas como a ação de um povo reunido sob o influxo do mito propriamente cristão.
            McIness quanto a isso não especifica propriamente que ele o faça. Mas permite alguma consideração sobre o que seria a contradição soreliana entre ver as antigas Escrituras judaica  como "literatura política de uma classe camponesa revolucionária"  (op, cit. p. 111), e incluir os levantes de camponeses, as revoltas de escravos, o jacobinismo, o socialismo estatal e o anti-semitismo numa mesma categoria da "ética dos consumidores". A qual se vê contrastada à saudável "ética dos produtores" que não estaria limitada à moralidade dos trabalhadores ou ter um significado econômico, mas ser a moral que especifica a "vida boa como um empreendimento cooperativo e criador encetado debaixo de um espírito autoconfiante" (p. 114).
          Esta se ocupa com atividades artísticas, religiosas, científicas e industriais por exemplo, enquanto aquela tudo faz por espírito de inveja, de modo que como os movimentos citados exemplificam, acabam sob o jugo de algum aventureiro, geralmente um intelectual. A contradição alcança a convergência que já salientamos, do marxismo com a religião - e inclusive defendida em seus aspectos mais reacionários como a castidade conforme ao catolicismo.
             Como salientei, devemos examinar opções concretas de Sorel sempre relacionadas aos conflitos concretos da época - lembrando que o liberalismo de Smith, esteio da legalidade sonhada da sociedade civil, estava desmoronando nessa época, entre a unfair competition e a emergência do mais aterrador monopolismo de carteis sob regimes imperiais/imperialistas. Como hoje em dia temos visto - por onde compreendemos que o uso da prostituição dirigida para apropriação sistemática de pequenos a médios patrimônios ou destruição de personagens públicos,  hoje tão disseminada, pode ter sido o que Sorel estava combatendo a seu tempo, e não propriamente o amor livre. Simmel registrou a prática corrente, na mesma época, do que designou alta prostituição - da mulher pelo próprio marido, nos círculos do alto capital. 
            Que Sorel pode não ter sido adversário do amor livre vemos pelo fato de ter se  conservado sempre o apaixonado de sua mulher, que entretanto não viera de círculos considerados "puros" pelos burgueses inclusive da própria família dele, conforme registra McIness. Ele nem chegou de fato a casar-se, devido a essa oposição, tendo se fixado num culto à memória dela, desde quando ela morreu.
             Em todo caso, mesmo através das contradições podemos ver que Sorel se movimenta estritamente com base na antropologia pós-positivista, que não permite a narrativa linear do progresso técnico como determinante das instâncias variáveis da cultura conforme sociedades diversas no tempo e no espaço. Porém o que ocorreu nessa época foi a dobra narrativizante desse culturalismo, a fim de que se preservasse a dicotomia entre o ocidente industrial e as demais sociedades, assim como civilização moderna  e tradição. O que torna Sorel tão singular é justamente o fato dele não ter perseguido a dobra, e, pelo contrário, ter mantido o mito longe dela a ponto de poder tornar a própria civilização, via marxismo, a expressão da única psicologia profunda a reger todas as produções culturais possíveis.
           A construção do marxismo como mito repousa, pois, na estrita correspondência a uma psicologia que explica os fatos sociais, ultrapassando a dicotomia durkheiminiana entre a patologia e a coesão. O conflito social não é patológico no sentido da ausência de coesão social, como, inversamente, afirmava Durkheim. Mas não parece que Sorel tenha querido reduzir Marx a uma "estrutura" à Althusser. A "greve geral" atua em seu texto nos antípodas do que faz o "modo de produção" como "conceito" naquele de Althusser et. alii, no Lire le capital. Mas também não podemos seguir Hindess e Hirst quando eles pretendem que Althusser errou ao conceituar, e que a epistemologia deve ser descartada - reduzindo-a eles a produção conceitual como de ideias puras, objetivas - pelo menos não no sentido de igualar a isto o empreendimento soreliano.  
            A "greve geral" em Sorel é o mito marxista enquanto visão de mundo que insere numa explicação do sentido fenomênico ao proletário como sujeito de ações possíveis, coerentes às propriedades desse mundo. O mito transforma pois o indivíduo de um mundo qualquer, ou amorfo, em sujeito desse mundo da luta de classes como proletário. Por outro lado, a guerra é o que substitui a visão da sociedade una. Não há correlato da coesão ou do seu contrário. O que há é  uma guerra desencadeada pela ação hostil de uma parte sobre a outra, e a correlata ação dessa parte hostilizada para recobrar sua liberdade.
         A noção de  humanidade como sujeito "social" está pois só aparentemente dos dois lados. A parte que luta defensivamente é a única que está preservando uma visão de mundo inteligível em si mesma, enquanto ao outra atua destrutivamente o status da espécie - se esta não é naturalmente composta de escravos e de senhores, ao contrário do que Nietzsche parecia querer fazer crer.
            Mesmo que não se possa afirmar que Sorel descarta o conceito, ele não preserva, pois, a dialética que faria do político um meio da ação do proletariado. Nem a luta de classes como epifenômeno de algo conceituado como modo de produção, uma vez que ele a reduziu sinteticamente à greve geral. Ele não se confunde pois, com os dois lados do conflito semeado entre os marxistas,  em que poderíamos colocar de um lado o humanismo comumente apreendido como exemplarmente o de Gramsci, e, por outro a recusa althussseriana de Hegel conjuntamente à análise estrutural dos "aparelhos de Estado".
           Aparentemente Sorel estaria mais do lado dessa análise crítica althusseriana do que do humanismo de Gramsci, porém o meio em que ele inseriu sua síntese não é de fato nem mesmo bergsoniano, mas uma criação particular sua a que tratou como a filosofia do pessimismo - o que faz dele um pensador na linha do existencialismo, porém por um viés ativista que nenhum dos expoentes conhecidos de fato seguiu. Pois não é usual a junção da problemática em nível existencial e a recondução histórica dela em termos de proletariado.
         A contradição aqui parece instalar-se entre um pessimismo sobre o ser humano como natureza má, e a previsão de um final feliz para a sociedade, reordenada em grupos autônomos a partir da greve geral que destruiria a organização pseudo-política da dominação - a princípio segundo a orientação  anarquista, porém como salientei Sorel tendo se agremiado com muitas outras filiações, do que trataremos ainda à frente. Porém nesse ponto é que devemos indagar em que consiste a oposição tão enfatizada de Sorel, entre a síntese da luta de classes na greve geral como do que dela deve resultar, e a utopia como prognóstico do estado futuro a partir da instauração do estado de coisas original.
           Não obstante o resultado da greve geral ser apresentado como independente de todo conceito burguês de "felicidade" como fruição consumista, ainda que não independente do estado de coisas mais satisfatório em termos morais e da justiça social, aparentemente é a mesma contradição. A utopia é o enunciado de um estado de coisas satisfatório futuro. A oposição de Sorel incide porém sobre a irreconciliação do presente, o que visa a greve geral, e futuro como o que visa a utopia. Contudo, é à crítica soreliana do conceito burguês de "felicidade" que devemos  retornar, e com base na qual se tornará oportuna a tangência de sua complexa participação nos movimentos ativistas contemporâneos à sua produção.


               A atualidade da síntese soreliana da luta de classes como atuação da greve geral proletária é o elemento mais importante a se entender. Como salientei antes, é decorrência da mudança histórica recente, e de modo nenhum o que se coadunaria com o curso da modernidade como o processo sócio-econômico que atingiu o auge no pós-guerras. Naquele ponto da trajetória de consolidação do Welfare State, seria tudo menos coerente reduzir o sistema sócio-industrial à plutocracia da força, conforme alguma disseminada mentalidade ilegalista. Pelo contrário, a face da esquerda que então se erguia era já inteiramente dentro do espírito da crítica de Weber à burocracia como planificação da totalidade, algo análoga à de Heidegger ao "impessoal" brando, inteiramente assujeitado à conformação pública dos valores privados.
             A preocupação era com a consequência da integração total de todas as classes à ideologia a partir da aparente assimilação da sociedade de consumo por parte delas, dentro da planificação dos empregos e da mercatorização generalizada. A capacidade contestatória ao açambarcamento do heterogêneo pela cooptação mercadológica desapareceria, assim como a produção intelectual consciente. Não teria havido o fim da hierarquia de classe, mas a solvência da possibilidade de que a contestação a ela por parte dos explorados arrastasse consigo a contestação fundamental ao domínio sobre a liberdade e a pluralidade dos valores, se aquela contestação fosse narcotizada pela generalização do consumo ainda que da qualidade inferior, popularizada. Vemos que deviam haver algumas premissas solidamente estabilizadas, de que se depreendem os limites dessa crítica, ao ponto dela ter se endereçado como um saber definitivo, não sujeito à revisão histórica, na iminência da planetarização do sistema pelos imperialismos à Leste e Oeste.    
             Primeiro, havia a premissa de que a contestação  à dominação da consciência ou da sensibilidade pulsional era a fundamental, mas apenas por um certo ângulo, já que de fato a contestação real devia ser a do operariado à exploração de classe. Na URSS, a consciência de que após os traumas do stalinismo o que havia se consolidado como imperialismo russo era apenas um novo tipo de contrato social que excluía os intelectuais e cooptava  sistematicamente,  tornou-se também logo generalizada, mas nem por isso subverteu-se aquela ordem de prioridade. Ainda que ali já não existisse a exploração  capitalista, o equacionamento não desdobrou uma revisão profunda da filosofia da história provista pelo marxismo. Ela apenas se pronunciava de um modo que fazia parecer estar integrando as evidências do funcionalismo weberiano, oportuno justamente aos quadros da revolução há muito consolidada.
        À Oeste, as contestações que visavam chegar a isso não conseguiam ultrapassar a barreira do sovieticismo como limite da interpretação sócio-histórica. Uma vez a revolução ainda não tendo sido feita, sempre se podia recuar frente à evidência do seu destino à Leste pela adição da cláusula de que ela precisava de um ingrediente a mais para evitar o que podia ser colocado na categoria da mera degeneração. Reestabelecer desse modo o limite foi o papel do freudo-marxismo.
           Aqui a polêmica era singularmente enriquecida pela característica própria do imperialismo ocidental, abrangendo todo o peso da questão cultural. Havia sido justamente na base da crítica à civilização cientificista conceituada pelo positivismo que a sociologia de Weber previamente se afirmara, mas ela não pretendera ser uma negação da modernidade como sociedade de classes e do  capitalismo como evolução psicossocial da burocracia de empresa e Estado racionais. As novas questões da subjetividade não encontravam nessa base weberiana - que no entanto parecia a única suficientemente elaborada paralelamente ao marxismo - o peso de que necessitavam para ultrapassar o limite da sociedade industrial como o referencial da evolução psicossocial que unicamente definiria a possibilidade da emancipação futura.
            Assim, mesmo a new left mais radical estava comprometida com a contradição básica do Ocidente como ao mesmo tempo o horizonte da dominação cultural e da ciência da emancipação universal. Gradualmente ela convergiu a algum tipo de consenso com o freudo-marxismo, ao menos em seus expoentes maiores como Habermas e Apel, e a tarefa de equacionar a irredutibilidade cultural, urgente nos quadros bélicos da descolonização afro-asiática,  foi herdada pelo pós-estruturalismo que também não ultrapassou de todo a contradição.
       A segunda premissa corresponde à interpretação do momento presente,  em torno de 45 como o pós-guerras, de um modo que reduzia os dois precedentes conflitos mundiais a acidentes de percurso. As características do capitalismo plutocrático e ditatorial típico dos regimes totalitários, que foram expressões do neocolonialismo em estado puro, não penetraram na consciência crítica do capitalismo como alguma solicitação de se o reconceituar. Desde que os totalitarismos foram vencidos pelos aliados, a interpretação foi de que estes expressavam a essência do processo histórico da modernidade, e não de que o capitalismo exibia possibilidades de funcionamento bastante desiguais de modo que ou não havia uma essência, ou a modernização social não era determinada pelo capitalismo que já não podia ser reduzido a algum a priori.
           Tanto Weber quanto Marx lidaram apenas com a coincidência das revoluções política e econômica, de modo que puderam unificá-las por um viés determinista. A racionalidade burocrática conceituada por Weber realmente não está em conflito com a luta de classes preconizada por Marx, mesmo se o funcionalismo não é uma sociologia do conflito, mas sim da harmonia das partes, e se Weber não é um pensador dialético. Marx também visa o capitalismo como empresa racional, e por aí o que explica a possibilidade da Economia como ciência, mas assim como em Weber tratava-se de situar a exploração e alienação decorrentes da permanência da sociedade de classes como restos arcaicos a serem eliminados num processo de aperfeiçoamento contínuo. Os tempos de Weber já colocam em causa o progressismo "positivista", por seu  culturalismo, porém a contradição de sua crença na racionalidade industral apenas se aprofundava ainda mais por isso.
           O que realmente estava acontecendo nesse interim não era, porém, o que previam tais premissas. A aristocratização do capitalismo não foi detida pela catástrofe dos totalitarismos. Hoje, inversamente, podemos pensar que o Welfare State foi um momento feliz que coroou o sonho romanticista, ao invés da constante sistêmica da era contemporânea definida em termos de sociedade científica-industrial-constitucional.
          A ação plutocrática-oligárquica atravessou as crises para compor a articulação que se tornou conspícua como "complexo militar-industrial" norte-americano, que agora está sendo definido pela assimilação da "história efetiva", como articulação mídia-executivo por onde o equacionamento consciente do voto e a centralidade do legislativo já não são o ingrediente fundamental, mas pelo contrário, a cooptação intoxicante do monopólio da "indústria cultural" como a designava Adorno. A noção de democracia realmente não resta operante para determinação do estado de coisas vigente.
          Ao contrário da garantia dos direitos individuais, viabilizada pela autarquia dos poderes executivo, legislativo e judiciário, o complexo midiático-militar-industrial que caracteriza o "Estado" atual tornou-se dominante com a "globalização", atuando ao invés a universalização das insituições midiatizadas como instâncias de corroboração da dominação naofascista sobre a privacidade - de modo que a deliberação da ação pessoal se torna apenas "conciliada" para parecer submetida à permissão de um dever-ser fantasmático-generalizado, ao invés de se manter inadmissível a prestação de contas nesse nível.
           O panopticum tornou-se algo que não podemos ridicularizar como um projeto jamais exequível, na decorrência da sociedade democrática - aquela que se define pela absoluta garantia da liberdade individual em sua cisão completa da observância da lei em nível público. Tornou-se uma realidade sempre mais exigida como normal pelo monopólio do business de mídia sobre todo espaço de circulação cultural e existencial. Ao invés da aplicação de penalidade à invasão da privacidade como seria coerente com a constituição das democracias liberais, ocorre no máximo a "conciliação" como justificação de que se está "licenciado" por algum Poder para agir como se delibera com relação a decisões puramente pessoais.
            A ciência já não resta confiável em sua disjunção da ideologia, quando invade a individualidade dos corpos através da legalização de transplantes de órgãos, assim como já não resta confiável por ser a pesquisa inteiramente integrada ao interesse e suporte das empresas multinacionais de capital particular que estão destruindo a viabilidade da biosfera pela agressão sistemática ao meio-ambiente e abuso da consumação energética.
          Após as duas guerras, o ambiente bélico da descolonização afro-asiática apenas resultou na mundialização do imperialismo com disseminação de ditaduras de feição neo-nazi-fascista por meio da força a partir da ação para-legal dos serviços secretos, norte-americano e das antigas metrópoles europeias na cena da guerra afro-asiática, conforme Franz Fannon e outros sociológocos cobriram a contento. A globalização ou internacionalização da fábrica multinacional, que estabilizou o planisfério do conflito norte-sul, inviabilizou de modo aparentemente definitivo o processo da industrialização do terceiro mundo conflituados até então pelas ações de força das nações do primeiro mundo interessadas em seu mercado importador.
      O capitalismo como mera plutocracia independente de todo a priori da legalidade, o intervencionaismo independente de todo a priori burocrático, e a passionalidade do monopólio "cultural" do business de mídia independente de todo a priori da racionalidade,  tornam-se os referenciais coerentes com os fatos da era presente, ao invés da definição weberiana do capitalismo como empresa burocrática-racional-legal.
              O monopolismo de cartéis integrados, que hoje se designam "multinacionais", havia sido a base econômica do capitalismo nos regimes totalitários, tendo sido debelados pelas instituições de polícia na ambiência do pós-guerra, porém retornou como a definição mesma da "globalização". A cisão formal de capitalismo como regime econômico  e Estado de direito como regime político é hoje dogma risível na prática, ainda que a depeito de todas as evidências até poucas décadas atrás era ainda o referencial da legalidade como o produto da própria evolução  psicossocial da economia da livre empresa. E hoje o que já não se pode afirmar é justamente a identidade de livre empresa e capitalismo.
           Sorel refutava essa identidade. A sua época foi o primeiro momento de consolidação da plutocracia pela aristocratização do processo revolucionário-industrial no cenário do neocolonialismo. Ou seja, foi o momento em que a mentalidade da modernização política generalizada desde a Revolução Francesa, dado o nexo com seu modelo, o parlamentarismo inglês, já não suportava o processo efetivo da universalização da luta de classes.
            Tanto na Inglaterra como na Alemanha e demais economias fortes, a Revolução Industrial reforçou a ação expansionista típica de impérios que passaram a fabricar novos imperativos "civilizadores" de raças eleitas, pela religião cristã ou pela pureza do sangue. É notável que tenha sido justamente nessa época que a sociologia weberiana tenha iniciado sua compreensão do capitalismo como empresa burocrática-racional-legal, mas não surpreende que o grau de ambiguidade de sua crítica social não seja muito apreciado pelos que desde o pós-guerras fazem uso do funcionalismo apenas para colocar na conta dos fatos naturais a interdependência "sistêmica" de Estado e capital.
              Pois é justamente a independência da sociedade civil, a premissa da legalidade constitucional da nação contemporânea,  que se tratava de denunciar estar sendo solapada, mas Weber pensava nisso como possivelmente uma consequência imprevista da racionalidade burocrática em geral, ao invés de, como Sorel, uma impossibilidade prática a partir da mera vigência do capitalismo que ele definia mais sagazmente, não como empresa racional-legal, e sim como plutocracia da força.
            A luta de classes não era composição de extratos sociais a partir do excedente populacional, ainda que por uma lógica do lucro desigual coerente à objetividade do empresário,  como Weber pensava, mas sim o contínuo exercício da "força" sobre camadas populacionais subjugadas.
           Sorel estava consciente de que a visibilidade histórica em que se colocava convinha a revisões profundas do que teriam sido as limitações do marxismo pioneiro, em que a premissa da greve geral proletária restara em germe, porém não desenvolvida completamente.  Seria mais coerente, na vigência da plutocracia conforme Sorel, considerar que a ação das esquerdas na legalidade apenas prolongava o exercício da "força", e que resultaria a médio e longo prazo na escravização total do proletariado.
           O que hoje estamos vendo cumprir-se na contingência brasileira - após década e meia de regime esquerdista, estando o país entregue ao domínio de multinacionais que atuam no mais completo desprezo à legalidade constituída, radicalmente disseminada a mentalidade autoritária neofascista de total "desconhecimento" da autonomia da pessoa física, sua privacidade e liberdade de cosciência e expressão, com massas que ostentam comportamento sempre mais bárbaro devido ao mega-favelamento e desletramento, assim como um totalitarismo info-midiático que não tem qualquer limite legal na sua dominação sobre a mente e existência humana.
         Porém o enunciado da escravização total do proletariado, comportando o limite opositivo da guerra de classes, engendra o estreitamento da perspectiva pela qual se torna visada a agência histórica. De fato Sorel revelou-se um argumentador menos hábil e até bastante questionável ao secundar o programa anarquista da greve geral por uma filosofia pessimista que era a princípio puramente individualista. Mas falhou completamente apenas quando se tratou de identificar com precisão o sujeito da ação revolucionária, uma vez que para fazê-lo, não querendo deixar de atuar apenas uma aplicação da sua teoria moral, esta compreensivelmente não deveria depender da filosofia da história, e, entretanto, pelo caráter de aplicação não podia abandonar a dependência.
          Aparentemente a oposição de mito e utopia pretendeu ultrapassar essa aporia. O mito resolvia a questão histórica do presente, na medida em que a guerra de classes não era como em Marx o motor da história, mas apenas a articulação da sociedade capitalista presente. Ao descrever essa articulação, Sorel inova de um modo bastante feliz por inverter o sentido da trajetória da produção, relativamente a Durkheim e ao próprio Marx. Para estes, ela implicava sempre crescente liberdade das forças produtivas e divisão do trabalho. Para Sorel, a efetividade revelava, inversamente, sempre maior unificação das forças num imenso organismo que não deixava nada fora de si, o que é mais coerente com o que vimos estar sendo sempre mais constatado desde o pós-guerras.
          A luta de classes situava pelo mito da ação revolucionária a sua resolução em situamento existencial de pessoas concretas, mas assim o proletariado devia ser ele mesmo mitológico, não obstante Sorel pretender defini-lo em função exclusivamente da situação material do operariado empregado na produção - não o rol completo das pessoas que se considerassem oprimidas. Por aí Sorel envereda por uma revisão da história em termos de ação de forças e natureza da energia que já não respeita a circunscrição factual da situação presente.
          Utopia, em contrapartida ao mito, era para Soral algo indesejável como futurologia, o contrário da previsão do desenrolar no tempo de um mesmo acontecimento já presente, e, além disso, o fundamento da utopia era a idealização de um estado perfeito independente de qualquer fato real. Em todo caso, como McIness observou, ele pensava estar respondendo desse modo à objeção dos social-democratas sobre que se a ação revolucionária do proletariado fosse possível, então ela já não era necessária porque implicava já ter acontecido. Se fosse exequível a mobilização total,  então já tinha ocorrido a conversão da população real à efetividade da supressão do hierarquia de classes. Exatamente, replicava Sorel, mas por isso mesmo a greve geral devia seguir-se efetivamente.
          Ora, a questão aqui é que a conversão total obviamente não havia  acontecido. Assim, a definição do proletariado como realidade sociológica "para-si" e não apenas "em-si" é que ficara pendente. Sorel tentou remediar isso ao esgrimir contra a esquerda legalista ("parlamentar"), que toda a sua perspectiva de ação contestatória e de proletariado era apenas uma caricatura da ideologia "política" da classe-média - o termo que utilizava preferencialmente  em lugar de "burguesia".
          Assim como de suas táticas para alcançar a dominação das instituições. Porém ele chega somente a uma contradição entre a idealização do proletariado como por si só conduzindo a um estado de coisas que respeitará o radical individualismo do "homem livre", e uma filosofia do dever-ser moral que deverá ser adotada pelos trabalhadores na "sociedade organizada de acordo com os novos conceitos". (p.242)
            O individualismo do "homem livre" membro do proletariado é o contrário do respeito a líderes de partido, porém é pressuposto como devendo o proletário da sociedade revolucionada ser o tipo do guerreiro de todas as épocas, cujo temperamento beligerante é temperado contudo pelo desejo de estar sempre ultrapassando seja o que for já dado antes. Uma contradição notável, se pelo contrário o guerreiro ante-moderno é  o mantenedor das suas tradições, e a sempiterna novidade do "progresso" é o atributo apenas da produção científico-industrial moderna
          Contradiçãoporém familiar a todos nós que já temos bastante informação sobre a "modernização-conservadora" que tem vindo a ter lugar na globalização, especialmente no terceiro mundo dada a manutenção artificial da economia arcaica da plantation na impossibilidade de desenvolver a indústria local. Como vemos, ela corresponde a algo mais do que apenas o imperialismo da "dit" (divisão internacional do trabalho).
              Em Sorel, contudo, a contradição de cultura e civilização típica do cenário weberiano inclui o incremento do "sublime" como componente da ação mítica que deveria contaminar, assim como a pureza da agressividade guerreira, o nobre ideal da greve geral proletária. Porém não compreendemos  contra quem a agressividade guerreira do proletariado puro estaria voltada após a eliminação do inimigo de classe - única razão pela qual o proletariado existe como tal.  Pelo contrário, na carta a Daniel Havely, Sorel informa almejar como estado de coisas obtido pela revolução a camaradagem entre as pessoas, que já não teriam razão para competir entre si.  
          A filosofia pessimista de Sorel baseia-se em duas constantes universais, cuja consequência é a infelicidade geral da humanidade. O desejo sempre contrariado pelos obstáculos que a experiência conhece continuamente, e a fraqueza da humanidade frente a estes. Sorel transforma essa premissa do pessimismo em princípio sociológico, deslocando assim a concepção de Le Play acerca da sociedade como distribuição do dever. Um obstáculo à realização do desejo torna-se uma constante como determinismo social a partir da dominação de classe.
          A sociologia do dever social ("social duty") é questionada como noção abstrata, uma vez que Le Play e todos os que a propugnam não definem quanto de dever cabe a cada agente social - assim o plutocrata e a classe média que é sua côrte sempre acham que estão cumprindo mais dever do que devem, e o proletariado sempre considera, ao contrário, que estão cumprindo muito menos. Sorel comenta a propósito como a experiência da greve demonstra que a primeira posição da classe média, pela qual a distribuição dos salários vigente corresponde à necessidade natural da produção  e não aos seus caprichos,  se contradiz inteiramente, de modo que concessões aos grevistas acabam tendo que ser feitas.  
           A sociologia do dever é portanto inteiramente refutada pela  sociologia da greve. Não há dever social entre classes assim como não há entre nações, ao ver de Sorel. A partir daí Sorel obtem um bom pretexto para sua crítica à ação e mentalidade da esquerda legalista, e como já sublinhei, essa crítica abrange a própria greve proletária enquanto instrumento político em vez de anárquico-revolucionário.  Um aspecto importante quanto a isso é ter Sorel registrado o anti-semitismo como ingrediente utilizado pela esquerda da época, que identificava o judeu com o detentor do capital.
         Fala ainda de um procedimento generalizado, pelo que  estigmatizam-se personalidades que se tornam públicas por uma propaganda negativa de modo a serem pessoalmente identificadas como agentes do desfrute de classe, com vistas apenas a canalizar o sentimento de injustiça, como se esta não abrangesse o todo da sociedade em termos de sistema.
         Também se compraz Sorel em desenvolver ao máximo a crítica à classe média, na qual chega a se mostrar contundente. Algo interessante é como ele atinge um dos espantosos resultados da atualidade, ao prever que a imbecilização da classe média só faria aumentar pelo fato de que ela acredita na liderança de sujeitos que são apenas supostos detentores de saber, e na realidade estão comissionados para perpetuar a ideologia.
            Mas o desenvolvimento positivo da exposição do socialismo enquanto doutrina da greve geral é retomado alhures pela conexão entre os temas do dever, moralidade, lei e justiça. A meu ver a contradição básica do anarquismo consiste em negar legitimidade às leis constituídas atribuíveis a um Estado, mas estar sempre pressupondo uma legalidade imanente se pretende justificada sua requisição pela mudança social a partir de um estado de coisas ser demonstrado injusto. A imanência nesse caso não pode deixar de ser apenas um princípio geral, carente de conceito, de modo que elide o principal da problemática da legitimidade, que é o caráter histórico e culturalizado da validez.
            Sorel radicaliza a contradição porque sua crítica da legalidade constituída como algo apenas derivado e não original ao homem abrange a noção de direito natural a partir de sua inserção na ambiência culturalista. Atribui assim o que considera a falácia do Estado de direitos ou democracia a uma secularização institucional da antiga filosofia do direito natural, argumentando que a democracia moderna tem por base de legitimação a universalidade da lei. 
            Tenho sempre insistido em que, pelo contrário, a democracia existe como cisão de público e privado tal que a lei em nível público não elide, mas pressupõe, a heterogeneidade do costume em nível privado.
           Se é desse modo aquilo que o anarquismo almeja como estado de liberdade individual é na verdade a realização da democracia, não podendo contudo ser realizado senão a partir de leis públicas estabelecidas como garantias dessa liberdade, se não caímos na contradição pela qual a liberdade individual é automaticamente o reconhecimento universal do direito individual de todos por todos. Essas leis públicas requerem a centralidade do legislativo pelo caráter histórico e cultural da legitimidade, como vimos.
          Para Sorel, cuja anarquia parece almejar um estado de coisas a-histórico como realização da natureza humana - e assim ele mesmo não nega um elemento utópico do mito - não obstante o ser de classe, isto é, produzida por um sistema social específico, a democracia é o que nós consideramos fascismo. É a imposição de leis ao sujeito enquanto privado, e para o demonstrar ele procede por um hiato entre o princípio, que é a crítica do direito natural enquanto desconhecimento das irredutibilidades de culturas, e a consequência que é a crítica do estado de coisas efetivo da assim designada democracia na sociedade capitalista. Não há algo que ligue o princípio à conclusão, porém conserva-se importante aqui a visibilidade da impostura que, sob o nome de legalidade e democracia, de fato apenas promove a opressão de classe.
          Mas nesse trânsito vemos a ambiguidade da posição política de Sorel. Se o capitalismo é plutocracia, e se por isso a seu ver é válido tratar péssima e até brutalmente todos nós que pregamos alguma vez a paz social como justiça por meio da melhoria das condições dos trabalhadores, então resta somente a greve geral proletária como ação violenta consequente, cujo objetivo não será negociação de melhorias salariais, e sim a revolução na qual o proletariado se apropriará dos meios de produção e abolirá o Estado. 
           Ora, a greve geral proletária é apenas hipótese de ação, a plutocracia é a realidade efetiva. A concepção nietzschiana da energia vital dos fortes, que falta aos fracos, não é utilizada por Sorel como justificativa de que haja exploração de classe, mas sim como critério do que é saudável - ele falará da classe média legalista e reformista, interessada na paz e na justiça social, como algo não saudável, neurose de quem age enfraquecendo a si mesmo
             Portanto, para todos os efeitos práticos, o anarquismo como pregação da greve geral - até que ela se efetive - é o reforço ideal dos piores oligarcas do capitalismo selvagem, que passam a partir daí como sãos e não sádicos, comparativamente aos legalistas de toda ordem que pretendem obter um Estado de bem estar social e um bom governo constitucional.
              Não creio que a ambiguidade corresponda a uma tortuosa razão que pretenderia por meios obscuros obter o contrário do que prega, e ser assim o baluarte dos plutocratas. Sorel revela de fato inconsistência, mas como alguém que não acreditava na humanidade senão como sujeito de discurso numa semiótica intransitiva como é a do mito. A relação - por onde a legalidade como pensamento da intersubjetividade - não é aí uma realidade originária. O signo se interrompe como alguma coisa sublime que já não permite o trânsito regular da fala, idealizando ao invés a ação direta que da indiscernibilidade de sujeito e objeto é porém impossivelmente projetada para o próprio campo social. A greve geral é esse mito, e vemos que Sorel, na decorrência da greve na Russia, não tirou a consequência de suas próprias premissas, aduzindo apenas que não havia elementos para prever. 
           McIness informa a propósito, o detalhe biográfico pelo qual Sorel continuava investindo dinheiro em títulos russos, assim como costumavam fazer os rentiers franceses, e como eles teve que confrontar o repúdio da revolução bolchevista a toda dívida externa, ainda que de modo bem oposto, tenha sido um entusiasta de Lenin. Tendo sido um francês abastado devido à herança deixada pela mãe, e que conhecera a notoriedade por suas obras,  viu-se pobre e isolado na velhice, mas confiante na revolução soviética como o signo da decadência definitiva da dominação burguesa.
           Ele tinha informação deficiente da situação norte-americana, uma vez que supunha poder confundir o "senhor" nietzschiano, reduzido ao plutocrata da indústria moderna, à mentalidade absolutamente contante de todo norte-americano, sem qualquer consideração a propósito das greves que aconteciam nos USA de então, o intenso ativismo, e a bela sociologia anti-imperialista de Robert Park em Chicago, cujas informações empíricas do conflito social das massas conserva-se tão historicamente importante quanto ainda é aplicável em vários lugares do mundo a sua "ecologia urbana". 
          Sorel também não sinaliza para a dependência da plutocracia ao neocolonialismo, que ele entretanto não desconhecia, e que Park combatia veementemente em artigos arrasadores como o que visa "o dinheiro sangrento do Congo", a essa altura já anexado pelo rei belga. Pelo contrário, McIness revela que na decorrência da primeira guerra Sorel estava colaborando com grupos de extrema-direita, monarquistas e nacionalistas em torno de Maurras, e também com um grupo católico liderado por Péguy. 
            A pregação de Sorel como revolucionário marxista em obras bastante abrangentes não é inteiramente compreensível nesse quadro, que possivelmente se relaciona a questões concretas da época, tanto mais que Sorel desaprovava tão intensamente os procedimentos da esquerda parlamentar. Mas justifica o que McIness considerou a solidão e silêncio em que ele se encerrou durante a guerra. É interessante o registro dele como editor da revista "Le Devenir Social" entre 1595 e 1597, a qual McIness observa ter introduzido o marxismo teórico na França. 
         Como enfatizei, creio que Sorel não está descartado como analista do capitalismo real em termos de plutocracia e como socialista da greve geral, porém como espero ter ficado nítido, não creio que ele tenha suprimido como supôs a necessidade do político como campo de ajuste legislativo a partir da heterogeneidade histórica-social. A greve geral deveria assim ser reconduzida ao estatuto do político, sem no entanto reduzir o étimo ao desempenho de uma profissão, e, pelo contrário, reconduzi-lo ao sentido da "polis" ou sociedade civil com uma endo-consistência cultural e histórica.
          Porém a greve geral é um instrumento da classe trabalhadora, e as instâncias de opressão e conflito sociais deploravelmente não se reduzem a um grupo  definido como alvo. Vimos como é algo precária a caracterização de classe em Sorel, algo perfeitamente coerente com o fato de que ele mesmo não era proletário. 
          Também podemos notar que sua apreciação do papel concreto da greve na efetividade histórica é contrastável com a estimativa de Maurice Dobb ("A evolução do capitalismo"). Este mostrou como, especialmente nos USA, cujos plutocratas de princípios de século atuavam de forma escandalosamente corrupta, a brutal repressão da classe trabalhadora  abrangia  grandes estoques de bombas para serem jogadas em multidões grevistas, conforme apurou a comissão de inquérito que teve lugar por iniciativa do legislativo. Apurou-se então que não havia qualquer indício de que os capitalistas temessem ação realmente violenta da parte dos trabalhadores, como invasão de fábricas por exemplo. As bombas eram para ser usadas à distância, e não havia armas para defesa em caso de ataque próximo ou do interior.
       Sorel afirma, inversamente, que a violência da classe trabalhadora estava se evidenciando como grandemente eficaz durante as greves, em termos de instrumento de pressão. O governo se tornava inquieto diante da possibilidade da inssurreição e assim pressionava por si mesmo o patronato. Ele não equaciona também a exploração do funcionalismo pelo próprio Estado na qualidade de empregador.
            Como regra geral, Sorel visa a esquerda legalista como uma variante da vontade de poder do plutocrata e da classe média. O que ela almeja é a liderança espiritual da classe trabalhadora, e, assim, a subjugação do potencial efetivamente revolucionário a partir do qual não restaria qualquer situação de inferioridade social ou de liderança sobre grupos ou pessoas. Quanto a isso, mostrou ser realmente um observador arguto ao notar como o êxito esquerdista na Bélgica havia resultado na subjugação mencionada. Mas não visa a questão social a partir de questões mais amplas do que a luta de classes, como já observamos. A sua relação com a produção intelectual resta ambígua, na medida em que é grandemente instruído e não constroi seu raciocínio à parte da história e informação filosófica, porém considera a intelectualidade em si um aparato do poder de classe.
           A propósito do seu entusiasmo por Lenin, McIness observou acuradamente que ele se equivocou, supondo que a revolução soviética iria realizar o estado anarquista preconizado por Proudhon ao invés da ditadura do proletariado com que Marx e Engels haviam brindado a filosofia da história.
           A necessidade de rever a definição do capitalismo como plutocracia imperialista e reconsiderar o papel dos movimentos de trabalhadores, especialmente pela instrumentação da greve, creio ter ficado patente como o objetivo da minha argumentação afirmar. O exame dos equívocos que as limitações de época favorecem não são menos importantes, se o que precisamos é evitar repeti-los, mas também porque não é de modo algum sensato considerar que o anarquismo e a tendência esquerdista-ilegalista que ele produziu não sejam ainda muito influentes na atualidade.
        
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 2) Mito e Filosofia:  entre o Sujeito e a Legalidade de Sorel a Lacan

         I )
            A estruturação mítica da Greve Geral soreliana veicula-se como a mensagem mais simples, de uma totalidade que não deve ser decomposta, isto é, analisada. Por outro lado, apresenta-se como uma temática desenvolvida de modo algum pelo viés da simplicidade, uma vez que encaminha-se por argumentos relacionados a várias, e não uma só, ciência humana - economia, psicologia, sociologia e antropologia. Além disso, o que defende com maior ênfase é uma tomada de posição filosófica em moral. A estruturação mítica deve pois ser interrogada em seu paralelismo a tudo isso. A que apelo ela responde? Qual é a questão cujo nível a exige?
        Ao interrogarmos o mito em termos de estruturação já transpomos de certo modo o limiar que nos garantiria um situamento interno à perspectiva soreliana. Falávamos, até aqui, de síntese. A aporia que nos conduz a essa ruptura é pois inerente ao conflito do uno e do múltiplo que acima divisamos.
          A argumentação de "Reflexões sobre a violência",  em várias linhas,  não permanece para si estranha ao que se diz unificado naquilo que propõe, a síntese mítica da luta de classes como Greve Geral, na medida em que visa justificá-la como ação que no entanto deveria ter sua justificativa somente em si mesma, conforme o caráter do indecomponível que se lhe atribui. E na verdade mesmo sendo essa interligação inegável, a argumentação é uma censura da ação outra é é por isso que nos vem a mente, do mesmo modo,  a terminologia do paralelismo.
          Se prestarmos bastante atenção, quanto à caracterização dessa ação outra como a alternativa legalista da esquerda, notamos que a filosofia moral soreliana apenas chega a um paradoxo na forma de dilema, devido ao fato de não ser tanto uma crítica real do capitalismo como plutocracia, mas sim, radicalmente, uma censura da ação das esquerdas legalistas enquanto, na visão de Sorel, uma programática visando a subida do proletariado ao nível da mediania.
         O dilema latente na filosofia moral de Sorel, convertida como é à terminologia da luta de classes como realidade antropológica mais básica, é pois entre o que é imoral: destruir os valores sociais estabelecidos, uma vez que não há sociedade civil além da plutocracia, ou não ter qualquer sentimento de compaixão pela injustiça social da escravização do proletariado de que se segue a plutocracia.
           A sociedade civil como a mediania foi reduzida por Sorel ao que poderíamos localizar como o papel da ideologia, mero apêndice da plutocracia. Se escolhemos a leitura de Reflexões sobre a violência sob a perspectiva de um dos lados do dilema, o que prefere destruir os valores, então segue-se o mito como ação indecomponível da Greve Geral revolucionária e portanto violenta. Em todo caso, a antropologia se prolonga na interpretação do Homem como ator num mundo de valores cujo projeto mítico é imanente a ele, e sendo só o mito capaz de unir sentimento e ação. Ao invés da mente calculadora como se a ação pudesse realmente advir da razão, e nesse limite mítico-passional o Homem é pois tão saudavelmente o plutocrata quanto o proletário que destruirá os valores da sociedade de classes para erigir valores futuros não condizentes com ela.
            Mas do ponto de vista econômico, vemos que o dilema posto pela equivalência de natureza entre o plutocrata e o proletário, desdobrada na diferença da cultura como o que a sociedade ou plutocracia produziu até hoje, só se articula por causa do lapso que consiste em elidir a relação entre a mediania e os extremos. A mediania é negável, segundo Sorel, por ser promessa mentirosa da esquerda legalista, uma vez que a mediania é simplesmente reduzida à existência plena da plutocracia. Porém Sorel não explica assim porque a plutocracia não se identifica com a causa da esquerda legalista, isto é, por que o termo "esquerda" existe em política, de modo que podemos recensear os ilegalismos da direita atuando no interesse de impedir a ação dessa esquerda legalista.
            Esse recenseamento, como espero ter ficado claro, é o que estudos em "história efetiva" tem revelado de modo a transformar a interpretação da trajetória do capitalismo ao longo do século XX, mostrando que o Welfare State foi a consolidação da sociedade civil democrática cuja estabilidade era o objetivo da ação concertada da extrema direita oligárquica destruir - ver sobre isso Cl. Julien ("L'empire americaine"), D. Halberstam ("The powers that be"), Mirow ("A ditadura dos carteis'), Dreyfuss ("1964, poder e golpe de classe"), entre outros.
           Assim a limitação do poder econômico visando a absorção sempre maior do proletariado na classe média, é hoje de direito função das leis já constituídas que impedem abuso de poder econômico, discriminação social, etc., porém não vigentes de fato a partir dos meios pelos quais o capitalismo articula a obstrução da justiça, seja via corrupção, pela dominação cultural info-midiática, ou pela via de acomodação orgânica da mercatorização generalizada.
          O interesse na coibição da "capilaridade", como  Sorel mesmo o designou, não ficou explicado por este, que portanto não equaciona o fato de que economicamente o incremento numérico da mediania interfere, sim, com a quantificação dos extremos, em termos de falta e excesso, o que configura a carência do proletariado e o poder do plutocrata. Lembrando que por proletariado logramos definir, na linguagem de Sorel, apenas o operariado potencialmente grevista. 
          E ele listou cuidadosamente os casos que não devemos confundir nessa linhagem: o político de esquerda que vindo do proletariado, faz carreira e adentra a classe média, os simpatizantes dele no sindicato, intelectuais legalistas, a parte da classe média que está imbuída da crença no reformismo como suficiente para suprimir a luta de classes e o lumpesinato quer compartilhe ou não essa crença.
        Aqui nem mesmo necessitamos incursionar pelos estudos sociológicos que cobrem a transformação dos agentes, desde os tempos de Sorel até agora, de modo que o proletariado já não se limita a termos tão simples. Vale mais focalizar a questão pelo fato de que temos pois, na abstração das consequências da mediania, a ação outra relativametne à Greve Geral, como a legalidade da mediania, ação que passa a se inscrever sob o crivo da censura a que visa a argumentação sedimentar. 
      Porém a arregimentação dos três termos, mito, argumento, ação, abre a lacuna do proletariado como o sujeito confrontado ao dilema - a ausência no discurso, que reveste o proletariado dessa fantasia de ação que é a Greve Geral. Fantasia enquanto projeto, esquema imaginário do que poderia ser feito a partir da anulação dos outros dois termos - o argumento e o mito, uma vez que a ação é impulsionada pelo mito mas evidentemente não se confunde com ele. Temos o mito quando ainda não temos a ação, mas se tivermos a ação então já não se tratará simplesmente de mito. Estaríamos na decorrência desse futuro que Sorel coíbe antecipar na forma da utopia.
        Seria interessante a meu ver a análise da estruturação mítica a partir do situamento em que Lacan a instaura, na conhecida relação de mito e ciência conforme estabelece a psicanálise. A relação entre ambos é genética segundo os objetivos da referida explicação.
            O fato de termos curiosidade, a vontade de saber que é causa da ciência, produz a esta como, outrora, a filosofia. Mas como ela nasce em nós? Segundo a psicanálise, nasce naquele momento em que surge na criança a curiosidade sobre o seu próprio sexo - quando ela já está crescida o bastante para descobri-lo em seu corpo, o que geralmente ocorre paralelamente a nova gravidez da mãe.
          Aqui convergem pois os complexos de Édipo e o da castração. Enquanto a criança "pesquisa"  junto aos pais o que ela começa a querer saber, está ocorrendo o incremento do seu desejo por emular o papel de um dos genitores junto ao outro. A "pesquisa", contudo, se faz por uma criança que está apenas tentando obter indícios que corroborem o que ela projetou como a verdade mais inabalável - a identidade sexual do pai e da mãe. O terceiro acontecimento que se une, pois, ao desejo por um dos pais e a descoberta do erro dessa projeção, vem sendo a entrada de um terceiro, o pai, nas relações mãe e filho.
           O pai é pois o falo que a criança descobre, mas primeiro como a resposta da identidade sexual de todos os seres. O mito é então a estrutura "imaginária "em que a criança pode se manter, na medida em que o pai é ao mesmo tempo incluído e excluído da primitiva relação dual criança-mãe. O "simbólico", a capacidade operatória da objetividade ou legalidade, é o que a criança ainda não tem, e o que a introdução do pai como um terceiro está pois forçando a vir a se consolidar. A partir de que a linguagem deixará de ser a identidade da coisa e do sujeito, para ser a troca ilimitada do significante na imanência dos sistemas operatórios.  O Real é em que tudo se enraíza ou começa, aquilo que se precipita desde a percepção permeável aos acontecimentos do desenvolvimento infantil, por exemplo a percepção do falo do pai.
            A chave aqui, na interpretação lacaniana do mito, é que ele é o próprio desenvolvimentismo, o impulso psíquico no rumo do simbólico a partir do estado primitivo imaginário. A castração será pois o momento em que a descoberta da não-identidade sexual de pai e mãe, a posse do falo só pelo pai, por onde a mãe é "castrada" do que a criança pensava que ela tinha, precipitará o inconsciente como o imaginário em sua disjunção ao consciente que doravante é a plenitude da linguagem como aquisição do simbólico.
           O mito é a estrutura imaginária em que a passagem está sendo articulada como desenvolvimento, e é por isso que sua decorrência é um período de trânsito de perversões e de potencial neurótico que o tratamento do pequeno Hans, paciente de Freud e filho de um dos discípulos deste, exemplifica de modo notável.
          A travessia mítica é pois um lugar e não uma utopia, na medida em que é ao mesmo tempo que trânsito rumo ao destino simbólico -  a acomodação do falo/significante a partir da descoberta da feminilidade como seu oposto e portanto, da hiância do significado - parada, recurso para não prosseguir até a descoberta da hiância na mãe, já de certo modo entrevista. Meio para manter a relação dual, série de tentativas para corroborar a primeira hipótese da identidade sexual dos seres, por uma estrutura que pudesse se sustentar na fala, isto é, propriamente a estória mítica do mundo.  Porém eu arriscaria aqui a expressão ur/topia para esse lugar em que se articula, uma vez que é a posição do lugar da linguagem como trânsito do significante, o lugar do falo na economia psíquica,  que está sendo construída.
        Em todo caso, a explicação psicanalítica visa escalonar não apenas idades mentais como uma teoria do desenvolvimento, mas a explicação que embasaria a classificação antropológica dos estados primitivo e civilizado. O mito é pois o avesso da ciência, embora só exista posteriormente ciência porque houve antes mito. Lacan demarca com precisão porque a "teoria" infantil da sexualidade como identidade não é "teoria" na acepção da ciência. Aquela é mito porque - como nos diz também o próprio Sorel - engendra uma participação vivida, uma encenação motivada da parte do sujeito, endereça a sua ação, e não de modo refletido ou deduzido.
         Ora, o problema aqui é que desse modo se explica porque não há ciência além da sociedade moderna-ocidental, civilizada. Esta gestou-se ao longo de sua vontade de saber e seus mitos correspondentes, na medida em que essa sua trajetória se orientou por uma série de interdições, do indo-europeu e romano ao semitismo judeu e cristão, que impedem a criança ver sem pudor a nudez ou o sexo dos pais ou de si mesmo. Assim como também pela interdição das formas de poligamia feminina e/ou masculina. Porém não se explica porque só uma parte da humanidade teve que se engajar nessa trajetória que define para todos os efeitos - políticos, médico-psiquiátricos, jurídicos, sociológicos, antropológicos, econômicos e imperialistas  - o que é "desenvolvimento".   
          Assim a clivagem básica da psique entre inconsciente e consciente, que depende da acomodação psíquica da realidade a ser descoberta, a saber, de que alguns não tem e que outros tem falo, enuncia a própria posição do enunciado de um sujeito suposto saber confrontado ao mundo como a essa hiância que não é apenas a ignorância de fato, mas o não-haver, de direito, do Saber como do Ter e do Ser. A definição da normalidade psíquica em função da realidade a se compreender comportar a desigualdade é pois tanto a do sujeito adulto e da ciência por um lado, a criança e o doente mental por outro lado, como um enunciado que pensando bem, é básico às oposições de status historicamente determinantes como proletariado  e burguesia pelo aspecto do ter, ou primitivo e civilizado quanto ao ser.
             Esse não-haver de um Saber, porém conforme a uma ausência que corresponde a uma vontade de haver, que, portanto, apreende-se somente em contraste a um dever haver, sem nos importarmos muito com o modo canhestro da expressão a que estamos assim obrigados, é portanto o significado na plenitude do mito, coletivo/primitivo ou individual/infantil.
          A aproximação dos termos do sistema mítico em seu estado de engendramento na experiência infantil,  que Lacan depurou na sua leitura da análise do pequeno Hans, com o discurso soreliano da Greve Geral parece-me inteiramente justificada e praticável, e de modo algum aventura temerária.
           Porém não se trata apenas de confinar Sorel, como o mito da Greve Geral Proletária, no diagnóstico de sua pré-edipianidade. Mas também, como Lacan parece ter intencionado quanto ao pequeno Hans, ser capaz de recensear os elementos efetivamente críticos componentes do mito, enquanto enunciação de um confronto   com algo de que se teve a coragem de ver na realidade, algo que não é apenas o que precisa se descobrir, como a natureza da clivagem sexual. E sim, mais propriamente, o inconsciente dos outros, esse enigma que é o papel necessário e injusto das interdições, na medida em que desdobra ao invés de um cuidado de sua administração, de sua pedagogia, toda a hipocrisia, a vaidade e a vontade de domínio que possa haver - e mesmo que um pai seja um psicanalista, isso não é de todo evitado.
          Mais propriamente ainda, não se trata para mim de se deter na letra lacaniana, para mostrar que o mito tem realmente um sentido revolucionário porém o ser assim das coisas humanas apenas deve precipitá-lo para além de si, como da ação, no rumo da razão. E sim interrogar das afinidades que restariam por questionar, de Lacan e Sorel, em função da raiz comum do dogma do proletariado como enunciado universal da ciência social - leia-se "ocidental".   
         
   II )

      
         a) 
                 A leitura que estamos por desenvolver se endereça como aquilo que tenho designado "geoegologia". Trata-se do modo como a teoria em ciências humanas, desde que estas emergiram em princípios do século XIX, vem assegurando o enunciado "para si" do Ocidente como uma unidade de trajetória, de modo que a própria emergência das humanities paralelamente à Science dita "da natureza", seria a resultante como parâmetro do "desenvolvimento". A geoegologia é esse étimo que reune as tres raízes da "geopolítica" enquanto realização histórica ocidental, como de toda ciência e legalidade; do "ego" enquanto o status da centralidade do ocidente como o referencial "desenvolvido" na história que seria entretanto a do Homem; e do "logos" como o meio em que o enunciado do "desenvolvimento" se constroi, i.e., o meio teórico-científico-humanístico.
          Enunciando-se o Sujeito da história, que a esta realiza pioneiramente como ciência ao mesmo tempo e pelo mesmo caminho em que ocorre na história das ideias a pioneira emergência do sujeito pensável, o Ocidente introduziu o Estado de direitos contemporâneo a partir dessa mutação do direito que elidiu a diferenciação do status na atribuição da lei ao sujeito dos direitos.
         Na sociedade estamental o sujeito não existe para um direito que julga pela pertença a um grupo de status ou "estamento" - tipicamente no feudalismo, o clero, a nobreza e os plebeus, estes últimos servos e depois burgueses. O estamento não é assim apenas um recurso perante o tribunal, mas a letra da própria lei que se diferencia pois, de estamento para estamento, de modo a distribuir privilégios e obrigações conforme essas diversas atribuições de status Isso ficou para trás como o "antigo regime" que a Revolução Francesa deveria ultrapassar.
           A história dos duzentos anos da legalidade subjetivada, a partir da transformação pela qual todos os sujeitos passsam a ser individualmente sujeitos dos direitos, e cada um responsável por si perante a lei, é bastante complexa. Só por um esforço didático notável é que se poderia considerar inteligível a atribuição verdadeiramente contrária aos fatos, pela qual a mencionada Revolução instituiu na generalidade do continente europeu, a transformação que almejou nesses termos. Não só o período que se seguiu a 1789 foi de franca reação monárquica, como as histórias nacionais do continente exibem cursos bastante singulares.
             Aqui devemos contudo observar que a partir de um certo ponto, essa história da legalidade contemporânea tem sido exposta por uma abstração notável que só vem se enunciando desde que uma generalização supra-nacional se tornou possível com o marxismo. A abstração, pois, é do imperialismo como o esquema gerativo do capitalismo, para uma generalização que começou ao reduzir-se a gênese do processo da legalidade civil à motivação da conquista da hegemonia pela classe burguesa. Enquanto definida como classe econômica, a burguesia contara, para a derrubada da nobreza, com o impulso do poder econômico a partir da reativação pós-feudal do comércio, culminando na Revolução Industrial como o novo mundo em que os valores e objetivos da Revolução Francesa encontraram a base material necessária à sua efetivação histórica.
           Atualmente a novidade não é tanto a introdução do imperialismo como esquema gerativo do capitalismo enquanto este não apenas a livre empresa comercial, mas a Revolução Industrial como historicamente efetivada, a saber, pela via do imperialismo dos impérios pós-coloniais. A imagem que temos hoje do Ocidente das nações democrática é como um foco em que vieram convergir esses dois vetores que são por um lado os objetivos legalistas da Revolução Francesa como transformação do direito, e por outro lado o processo econômico que culminou na catástrofe das duas guerras, e, a partir daí, na americanização do ocidente pós-45. A verdade, pois, é que a singularidade dos processos nacionais europeus não exibe por toda parte uma identidade imediata dos objetivos e teorias legalistas, ou mesmo das reformas no plano do direito, com a transformação do "antigo regime" enquanto exclusivamente definido agora em termos de monarquia ou império. 
           A Revolução Francesa foi inspirada na Inglaterra de Locke, isto é, pelo parlamentarismo. Só isso já interfere com o anacronismo de um objetivo democrático europeu imediato à Revolução, quando pelo contrário houve a passagem à Alemanha do pensamento legalista pela liquidação da doutrina do contrato social a partir da emergência do pensamento subjetivado e culturalizado da "constituição nacional". Mais importante ainda é que pelo meio do século XIX a Inglaterra era bem preferencialmente visada como o império neocolonial da Rainha Vitória, ao invés do parlamento almejado por Locke, e a Alemanha que logo entrou na corrida industrial neocolonial,  nunca teve  qualquer "Revolução" política como a francesa.
           O que unificou o processo complexo da legalidade na Europa desses duzentos anos, e o motivo pelo qual ele foi e tem sido o referencial privilegiado do conflito social a ponto de ter ainda que se decidir quanto a este se é estrutural ou apenas efetivo, é, portanto, a Revolução Industrial e não a Revolução Francesa por si só.
        A história da legalidade atravessa como uma constante geoegológica toda a evolução que nesses dois séculos tem sido também a da história das ciências humanas. Escusado lembrar que é nas ciências humanas, que abrangem o direito e a economia-política, que se elabora qualquer definição de legalidade assim como as teorias que irão embasar a prática dos profissionais engajados na construção efetiva das instituições entre os poderes executivo, legislativo e judiciário.
           A psicologia, a história, a sociologia, a antropologia, e todas as demais ciências humanas penetram aí, fecundam o campo social e são transformadas por ele. As mudanças nas histórias política, da legalidade e das ideias, são pois inter-relacionadas de um modo que só se especifica em relação a um modo de falar que lidaria ao invés, com uma unidade do "ocidente" ou "modernidade, recursivamente por injunções teóricas imanentes ao próprio campo humanístico-científico. Vemos assim que a legalidade é antes, nele como na história efetiva do conflito social, o que está em questão, antes que um a priori auto-esclarecido.
           A geoegologia lida com a "modernidade" sem unifica-la por um a priori, digamos, mentalista, como por exemplo o "logocentrismo" derridiano. Ela divisa apenas uma constante, a partir do enunciado do Ocidente como realidade "para si", isto é, auto-imagem ou auto-conceito de si como unidade ao mesmo tempo geopolítica e antropológica, histórico-cultural. A constante é visada sem solver a independência de cada ciência humana, porém como a linguagem construída de sua inteligibilidade comum. É a constante da oposição que constroi a unidade ocidental como o polo desenvolvido resultante da trajetória antropológica do "para si" ocidental, a qual no entanto se enuncia como o desenvolvimento "em si" do Homem, da totalidade do humano. O outro polo, portanto, é o sub-desenvolvido ou primitivo, o não-moderno-ocidental, escalonado porém entre os dois status de pré-moderno-ocidental e de não-ocidental.
           Vemos pois uma paralogia, ali onde se esquematiza o elemento gerativo da construção de qualquer teoria encontrável na modernidade ocidental. Nessa paralogia estão confusas a parte e o todo, uma trajetória étnica-cultural específica e a trajetória generalizada como de toda a humanidade. A confusão de todo e parte esquematiza o a priori pseudo-formal das teorias enquanto científicas, definindo o seu plano de enunciação antes que qualquer dos seus planos de enunciado. A enunciação da ciência (ocidental) é ao mesmo tempo a do "desenvolvimento" psisossocial-legal enquanto resultante da trajetória do Sujeito da história do desenvolvimento, que (só) a ciência (ocidental) deve ainda definir em que consiste. No plano do enunciado, o mais básico que reflete a clivagem do plano de enunciação é que, para todos os efeitos em qualquer teoria científica na modernidade, só há História ao invés de mito, e "ego" para si de direito, na modernidade ocidental. A origem da trajetória  é pois uma Antiguidade em que pioneiramente algo se enunciou para além do mito. A saber, a filosofia grega.
          Vemos como a paralogia já se encontra em ato nessa gênese enunciada, uma vez que a Grécia desconhecia  a Europa enquanto "ocidente" - que só veio a se definir alguma vez, na transição para o feudalismo, e nessa ocasião pré-moderna,  a Grécia coube na designação do Império Romano Oriental.  O anacronismo da Grécia-Europa é porém estrutural a qualquer teoria moderno-ocidental do Ocidente. Não há entrada histórico-antropológica do "ocidente" que não passe por uma teoria que conceitua o nexo da origem grega à resultante "moderno-ocidental", nexo este que define a própria "episteme", como a racionalidade científica.
         A paralogia geoegológica se estrutura a partir da segunda definição do Ocidente, na decorrência das Grandes Navegações. O "primitivo", o aborígine americano, é desde aí a matriz opositiva do auto-conceito da "civilização". A "geoegologia" como leitura da paralogia na história dos enunciados teórico-científicos da legalidade ao longo dos duzentos anos recentes, equaciona a sucessão dos paradigmas que formam os diferentes auto-conceitos do Ocidente até agora.
          A "teoria política" em que se efetivou a doutrina do contrato social, foi um primeiro "dualismo" classicista, que se articulava porém apenas entre natureza (matéria/primitivo ante-social ) e cultura (intelecto/civilizado social)  - na paralogia de ambos como atributos de Deus, mas somente a cultura, pensamento ou civilização cristã o sendo de direito.
           Mas a contemporaneidade propriamente, quando se trata da suposta evolução na cultura, é a sucessão dos paradigmas já científicos: romanticista, positivista, funcional-hermenêutico e estrutural. Os anos oitenta do século XX até agora tem sido designado "pós-moderno" justamente porque a base dicotômica do primitivo e civilizado vem sendo questionada a partir de fatos em vários níveis teórico-práticos, que inviabilizam já a unificação num só status, de todas as sociedades pré-moderno-ocidentais ou não-ocidentais. O que venho desenvolvendo como minha produção teórica, a geoegologia, sendo  proposta de leitura crítica do que vem se designando "grandes relatos" sócio-evolucionistas - uma generalização indevida do evolucionismo biológico para as ciências humanas - é pois uma teoria pós-moderna.    
       Aqui nosso propósito é a aplicação geoegológica na interpretação de Sorel e do enunciado psicanalítico, em termos de construções que estavam realizando uma mudança do paradigma. Tratava-se de liquidar o positivismo, enquanto inaugurava-se, confeccionando-o, o que estamos designando o cenário funcionalista-hermenêutico.
              Em vários blogs recentes tenho apresentado incursões geoegológicas na interpretação da gênese de teorias historicamente importantes que nesse momento eclodem, e venho mostrando como ainda são influentes mesmo na decorrência do paragima posterior, o estruturalismo dos anos cinquenta, o qual se desdobrou logo depois num campo "pós-estrutural" que se critica em vários pontos a ortodoxia, não é porém ainda uma ruptura de fato pós-moderna, e, assim, merece o nome que tem.
            O anarquismo é uma constante entre os fatores que importam à confecção do novo paradigma, entre finais do oitoscentos e princípios do século XX. É também, como os blogs referenciados descobriram, uma constante na evolução das esquerdas ao longo do século até várias interpretações da pós-modernidade - que não obstante são anacrônicas, porque não tangenciam a transformação antropológica que impede a dicotomia. O anarquismo ressurgiu com mais força após apenas o interregno do estruturalismo ortodoxo, no pós-estruturalismo, que como ressaltei aqui deve ser considerado errado confundir com o pós-modernismo, não obstante tanto tendo-se vindo a ser feito.
            É interessante notar que a análise que Freud fez do pequeno Hans, se desenvolve nos mesmos anos em que Sorel está produzindo o seu "Reflexões sobre a violência", com um ápice em 1906. Lacan, no seminário de 1957, que trata essa análise freudiana com minúcia inexcedível,  comenta que na carreira de Freud ela foi a oportunidade para a construção mais elaborada da sua teoria da fase fálica e do complexo de castração. Já o seminário lacaniano é um documento da sucessão do paradigma funcional ao estruturalista, ocorrendo na imanência do próprio campo psicanalítico. 
           Aqui não restará qualquer confusão quanto ao termo "estruturalismo". De modo nenhum se relaciona com o que poderíamos designar elementarismo, uma tendência reducionista na psicologia de princípios de século, que tem Titchener como referencial costumeiro, mas enquanto introspecionismo poderia também ser relacionado a Wundt.
        Esse elementarismo é pois limitado à história da psicologia e não uma metodologia historicamente crucial a todo um cenário de época na produção teórica humanística em geral como é o "estruturalismo" na acepção que estamos utilizando aqui, por um lado.
          Por outro lado, as próprias bases do elementarismo introspeccionista nada tem a ver com a crítica "estruturalista" a qualquer concepção obtida por introspecção, e a crítica do "elemento" como realidade ao invés da oposição em que o elemento é produzido. O elementarismo que alguns designam estruturalismo de Titchener,  naufragou factualmente tanto pela refutação do introspecionismo em psicologia na decorrência de experiência laboratoriais que refutaram do mesmo modo a psicologia positivista, em princípios do século XX, quanto pela generalização histórico-paradigmática do funcionalismo nessa época. O estruturalismo, inversamente,  é pois definido aqui como o cenário de crítica cerrada que realmente ultrapassou os limites do funcionalismo e obteve o referencial paradigmático-histórico, dos anos cinquenta até os anos oitenta, quando se começou a falar do pós-modernismo e pelos motivos que impulsionaram esse fato.
          O estruturalismo não elementarista, portanto, é o referencial que tem Lacan, Levi-Strauss e Althusser como os expoentes mais importantes.  O motivo pelo qual sublinhei o contraste com o elementarismo que alguns chamam por vezes estruturalismo, uma vez que tratar por esse nome tendências anteriores aos anos cinquenta ser muito raro, é a inserção brasileira deste escrito, uma vez que na atualidade várias confusões deploráveis tem sido neste país  propositalmente favorecidas. E o motivo pelo qual foi possível o uso raro, é que obviamente tanto o elementarismo quanto o estruturalismo são visões que privilegiam a independência da parte, enquanto o funcional-hermenêutico é o paradigma que supõe haver a coerção do todo sobre elas, que para ele estaria como o derivado para o fundamental.
          Um outro ponto importante a observar é que se neste escrito estamos visando a recusa anarquista da legalidade como um sintoma, e não como algo que devemos por princípio aceitar, já estabelecemos que não é por considerar suficiente a posição estruturalista que grosso modo a restaurou.
           Ficamos assim numa posição ambígua frente ao pós-estruturalismo até aqui, porém isso não é bem o que pretendo. Não creio que o pós-estruturalismo fez mais do que restaurar o que não queria substancialmente, o paradigma funcional-hermenêutico em estado puro, deixando-se reduzir ao anarquismo como se pode fazer hoje quanto a ele - ainda que Derrida fosse uma exceção notável, não obstante também não chegar ao necessário para assim se estabelecer, como à crítica do para si ocidental que ele, inversamente, consolidou como ninguém.
       Por outro lado, não há contradição em estabelecer Freud na gênese do paradigma em que o anarquismo teve também a sua própria, enquanto a psicanálise lacaniana torna a ser o referencial que resgata o legalismo corrente do oitoscentos - ainda que em bases estritamente coerentes com o século XX psicanalítico. Lacan não é Freud, e o lê com enorme respeito porém consciente desse fato. Se ao que parece, Lacan é mais liberal que Freud, e não o contrário, ainda assim devemos observar que o funamento do anarquismo é a interpretação pulsional do inconsciente, e Freud permanece sempre ambíguo quanto ao ponto exato em que devemos estabelecer a legitimação do que postula sem dúvida como a legalidade. A ambiguidade referenciada é nítida em todas as construções dessa época, ainda que não engajadas à esquerda como anarquistas.  
        É importante salientar que Lacan, nos finais da década de trinta, era ainda um durkheimniano em sociologia, e que sua ruptura original ocorre de fato não tanto aí, quando nominalmente rompe com o caráter pulsional do inconsciente freudiano, para transpor o papel primordial antes atribuído ao instinto já à cultura, na forma das relações familiares. Mas sim quando rompe também com Durkheim, o referencial mais importante na consolidação do paradigma pós-positivista na metade inicial do século, para abraçar a causa da antropologia estrutural criada por Levi-Strauss.
           À luz da crítica geoegológica, portanto, é que estamos considerando criticamente as posições da legalidade que foram construídas na dependência dos grandes relatos sócio-evolucionistas dicotômicos. Nossa pretensão não é propriamente resgatar o pulsional, como no pós-estruturalismo, mas sim questionar epistemologicamente os limites de uma objetividade constituída naquela dependência, e, assim, gostaríamos de retomar as questões de legitimação e legalidade na base dessa crítica e dessa superação.
            Atualmente, se essa retomada apenas construiu um novo meio de problematização teórica ao invés de algum dogma autoritário, creio que podemos ao menos estabelecer seu esquema a partir da consciência que temos da legalidade como cisão real entre público (lei constitucional) e privado (costumes subjetivos ou grupais). Por esse viés é que podemos questionar tanto o anarquismo quanto a psicanálise, em termos de formulações que devido à geogologia enunciativa, de fato não podem se mover senão na sombra da cisão real e como enunciados de sua resolução na história, porém contraditoriamente não chegam a evitar reintroduzir o que conjuravam como o avesso dela. 
         Um motivo pelo qual ao menos a retomada da legalidade foi possível na trajetória da psicanálise, não obstante o quão insuficientemente, é que ela a princípio se destaca das demais soluções de época pela postulação de que a subjetividade a ser construída ao longo da formação inconsciente infantil, não é como a atualização crescente de uma função predisposta originária. Mas sim uma construção real a partir de algo tão irredutível à percepção da alteridade e da unidade de si quanto a libido própria.
          A história do contraste destas posições foi posteriormente compactada como pontuada por episódios que ilustrariam a oposição dos paradigmas funcionalista e estruturalista - por exemplo, entre exemplarmente Merleau-Ponty e Piaget. Porém isso é mais complicado e Lacan mesmo, em seu Escritos ("à memória de Ernst Jones"), demarcou o que a meu ver seria mais ilustrativo. Como sua interpretação  do falo-significante contrastada às funções originárias postuladas pela escola inglesa, de Ernest Jones e Klein.
      A consciência crescente das limitações da modernidade em termos do aclaramento da legalidade como "split" público-privado, uma temática que vem se tornando explícita desde os anos oitenta, devemos porém notar ter coalescido na imanência do pós-estruturalismo enquanto um questionamento assim da própria retomada legalista do estruturalismo ortodoxo. Jameson e Deleuze o ilustram à perfeição. Jameson acusando Deleuze e Guattari de terem falsificado a permeabilidade do inconsciente ao social no Anti-Édipo, uma vez que para Jameson o primeiro-mundo "desenvolvido" é a priori subjetivado - isto é, edipianizado de modo que o inconsciente permanece o território da libido em que não há "outro", somente a pressão do "objeto" como do desejo. E Deleuze, em Cinema II, acusando exatamente como Jameson, o terceiro-mundo, de não ter o split público-privado, ainda que para Deleuze isso não queira dizer necessariamente um estágio pré-edipiano, mas sim explicando o pressuposto coletivismo primitivo por outro meio, como formação do inconsciente não-edipiano. Para ambos, porém, significa, sim, pré-moderno, na acepção de não-ocidental.
           Vemos pois que até aí, estruturalismo, pós-estruturalismo, ou aquele admirável amálgama que alguns como Bonomi  tentavam  então, de estrutura e hermenêutica, trafegam todos com a dicotomia totalizante de primitivo e civilizado.
          Eduardo Said ("Orientalism") torna-se, ao invés, efetivamente um teórico ligado ao pós-modernismo enquanto crítico do pressuposto intematizado dessa dicotomia, e, pelo contrário, visando reconstituir as instâncias pelas quais a dicotomia foi construída no discurso do "ocidente" enquanto aparato de legitimação do imperialismo.   

    
    

      b)
            Na mudança do paradigma positivista na emergência histórica do funcionalismo, vemos convergir notavelmente os seguintes fatores.
           Aquilo que na psicanálise está se encaminhando nos termos da "relação de objeto", é ou pressupõe na verdade uma assunção epistemologicamente pretendida da natureza da objetividade. As relações de objeto significam na psicanálise, na verdade as relações entre sujeitos, porém justificando-se a expressão porque os sujeitos não pre-existem como possivelmente apreensíveis na percepção do bebê,  mas são formados concomitantemente à construção das capacidades de relação na mente, e aquilo que é formado como sujeitos foi,  primordialmente, objetos da libido, isto é, suportes de sentimentos e desejos determinados da criança.
          Lacan demarcou que para ele, a expressão "relação de objeto" já parecia incômoda - trata-se conforme colocou, afinal de relações entre pessoas. Porém Lacan é quem mais contribui para a evidenciação de que mais profundamente, trata-se nas relações intersubjetivas na psicanálise, de algo que engaja a definição epistemológica da objetividade.
           Assim, um segundo fator, e o que mais importância revela enquanto a temática própria a Sorel, em função de quem estamos construindo a interpretação psicanalítica, é a legalidade. Ela é relacionada por vários aspectos às relações de objeto psicanalítica, que como sublinhei enquanto teoria estava se consolidando na mesma época dos escritos sorelianos. 
            Entre os aspectos notáveis, a princípio listamos o que se efetua a partir da objetividade, na forma da efetividade social, tratando-se pois do mais básico à definição legitimável do critério da normalidade das relações intersubjetivas.         
           Como explicação do fundamento, a partir da gênese dessas relações,  daquilo que na sociologia vai ser tratado como o dado ou as constantes do comportamento socialmente definido. E, assim, possibilitando as convergências com a teoria política que se verificaram  em frentes anarquistas, seja nas correntes da vanguarda estética, seja na teoria crítica de Benjamin e Adorno em diante,  que desaguou na new left e mais recentemente nas pragmáticas éticas da comunicação. Mais espetacularmente ainda, na trajetória do século XX, no freudo-marxismo estruturalista.
        Também, como se pode ver nesses desdobramentos, possibilitando mudanças importantes na filosofia da linguagem, especialmente desde o pós-estruturalismo.
       Ora, sobre a psicanálise, trata-se aqui como ressaltei, de observar que o pressuposto dicotômico de primitivo-civilizado é estruturante do discurso epistêmico, ao invés de qualquer outra oposição. Assim, se a psicanálise é o referencial em que a própria natureza da oposição vem ao mais básico de uma psique ela mesma construída, ela continua não obstante cega ao pressuposto dicotômico, e, pelo contrário, supondo que o explica ao passo mesmo em que esse seu mister de o definir apenas define a si própria.
          A oposição fundamental psicanalítica, como vimos, é a do feminino e do masculino e por aí, na auto-apreensão do gênero sexual diferenciado da criança, estaria a base factual da inteligibilidade objetiva. Ao mesmo tempo o mais íntimo e o mais factual, a generalidade ideal do gênero biologicamente diferenciado é o modelo de toda objetividade prática, a que desde aí estamos capacitados a reconhecer, conformando o devir e a mutação ao ser e à permanência.  Principalmente conformando as coisas à abstração das flutuações do que elas são em devir e nesse outro do devir que são as flutuações anímicas do sujeito. E a generalidade vem a se constituir ao cabo dos acontecimentos relativos ao complexo de Édipo, em que a criança define o papel sexual-social dos pais, e qual é o seu.
            O que não se conforma ao imperativo da conformação, é portanto a criança antes de se completar o seu complexo, o primitivo ou o doente mental, perverso, neurótico ou psicótico,  mas se o determinante da objetividade é a construção psico-desejante do gênero, então todas as condições de deficiência são diagnosticáveis como casos de anterioridade na efetivação de uma trajetória definida.
          Pode-se objetar à geoegologia, que a psicanálise  classifica o primitivo e o civilizado por um critério que não é seguido por outras correntes. De fato, o assim designado culturalismo, bem antes de Deleuze e Guattari já negavam que o Édipo seja universal, ao invés de uma estruturação possível apenas na família nuclear moderno-ocidental. Porém, como Marcelo Dascal ("Pragmática e filosofia da mente I, o pensamento na linguagem. Curitiba, ed. UFPR, 2011. p. 31, 2) observou, a posição pela qual "a linguagem reflete quaisquer propriedades que os processos mentais supostamente possuem", desdobra-se na classificação do primitivo como pré-lógico. Pois as características faladas de uma língua seriam exatamente correspondentes às perceptíveis na mentalidade dos falantes, como propôs Levi-Bruhl - um antropólogo célebre da era funcionalista.
            Ora, como Dascal salienta, para Levi-Bruhl,  "os conceitos do homem primitivo são 'conceitos imagem'" que se refletem "em características estruturais das línguas 'primitivas'". Assim, de um modo geral, a atenção do homem primitivo se reflete numa linguagem em que se destacam o "contorno, forma, situação, posição, maneira de movimento, características visuais de pessoas e coisas em geral" de modo que ela fornece apenas "descrições bastante detalhadas de objetos, eventos, estados e relações", sendo linguagem "concreta e específica" feita de "descrição detalhada de eventos, objetos, estados e relações", que não chegam porém ao que chamamos objetividade, na medida de sua "inabilidade em ser genérica e abstrata - isto é, 'lógica'". 
           Isso é exatamente o que Lacan, num outro seminário, o de 1971, intitulado "de um discurso que não fosse semblante" observou. Se houvesse um matriarcado, afirma ele, enquanto uma sociedade não androcêntrica, nela não haveria qualquer generalização ideativa. Pois não se pode dizer "a" mulher do mesmo modo que se diz "o" homem - como universal. A mulher é esta ou aquela, o homem é todos os homens, a humanidade em geral.
         Aqui nossa questão não é provar que a psicanálise está certa ao estipular a evidência da irredutibilidade dos gêneros biológicos como o modelo mental de toda oposição e generalização objetivas, mas sim mostrar que em todo caso, supõe a ciência ocidental que a generalidade foi construída na trajetória da filosofia antiga grega à ciência moderna europeia, e que fora dessa trajetória não há de fato a mentalidade objetiva.
           É importante notar que o androcentrismo como universal das sociedades, em relação a que, como ao complexo de Édipo para Freud, elas se compartem em primitivas ou desenvolvidas, é a contribuição de Levi-Strauss na etnologia e antropologia social. O funcionalismo pensava em termos de totalidades sociais, com o matriarcado sendo porém constante em sociedades primitivas. 
              Assim é compreensível que o marxismo adaptado ao pós-positivismo, tenha resgatado a ideologia como formações culturais necessárias a sociedades como criações de significado autônomo enquanto o freudo-marxismo que se desdobrou de Levi-Strauss possa ter retornado a uma rejeição da ideologia como aparato de qualquer posição ante-objetiva. Isto é, necessariamente formalizando um estágio do inconsciente que não desenvolveu a alteridade apreensível, de modo a fantasiar apenas relações de Poder (dominação) se não já de classe, de prestígio. 
          Se na época do mencionado seminário o freudo marxismo estabilizara a concepção universalista de que não havia senão sociedades androcêntricas, isso não significava que a concepção de sociedade primitiva havia sido desqualificada. Inversamente, e de modo bem irredutível às aparências, havia se intensificado a dicotomia do primitivo e do civilizado.
        Na posição funcionalista, a defasagem primitiva da objetividade implica a positividade desse excesso de significação que seria a ideologia ou cultura, pura criação de valores, sem relações de poder - a totalidade primitiva seria sem conflito, ainda que pobre e anterior a qualquer autonomização do saber.
           A defasagem na objetividade não implicaria por outro lado qualquer incapacidade de atribuição do "ser", à Heidegger, seria apenas essa atribuição despida de qualquer questionamento racional. Como vimos pela citação, a linguagem suposta primitiva recobre justamente as características de objetos. Na exemplificação de Dascal, "muitas línguas poderiam ter uma boa quantidade de termos para espécies únicas de macaco, palmeiras e peixes, mas não termos genéricos para estas mesmas espécies nem mesmo para plantas, animais, etc.". (op, cit. p. 32).
              Na posição estrutural, quando a pesquisa empírica na antropologia já permitia entender que ao invés de totalidades sem hierarquia, a sociedade primitiva continha relações de poder,  não há uma língua primitiva diferenciada, todas são igualmente estruturadas. Porém há um "pensamento selvagem" que justamente não apreende a generalidade da estrutura. O excesso do significante é o culto do poder que se presta a ele, como efeito propriamente estrutural pelo que antes da objetividade, o objeto não restringe o imaginário por qualquer propósito de canalização a um significado, encontrado a partir da vontade de saber. É puramente o significante que desliza incessantemente na profusão mito-poética do uso xamanístico. Nas sociedades primitivas sem ciência, não é que não se saiba, é que não se quer saber -  tanto mais que nela o pseudo-saber das proliferações mais fantásticas seja apenas poder.
          Assim, não é que para Lacan existisse alternativa ao androcentrismo na efetividade antropológica, mas sim posições definidas das relações de objeto, cujo modelo é sempre o sistema de parentesco. Quanto maior a margem de variação da escolha pessoal do casamento numa sociedade, mais desenvolvida ela é, e a ciência real, o desenvolvimento real, é o conhecimento moderno-ocidental da estrutura, os valores de uma cultura como combinatórias, cada uma subconjunto da razão universal que abarca todas as combintórias possíveis. Assim o conhecimento da estrutura é coerente com uma sociedade como a nossa - "ocidental" -  em que a escolha do casamento é praticamente livre, há crítica da ideologia como do poder,  há legalidade. Essa crítica se faz por uma verdadeira repulsa da coisa, a posição das relações de objeto é realmente pós-edipiana.
         Porém uma das ambivalências que podemos notar resultando da enunciação geoegológica comum às tendências díspares quanto à objetividade, funcional ou estrutural, é o que na psicanálise se expressa com mais clareza. Após Freud, a polêmica intra-psicanalítica produzida pelas contribuições de Melanie Klein já são hoje história, havendo inúmeros estudos que a cobrem. Uma publicação reunindo pronunciamentos na época, dos próprios interessados, é aqui útil pela temática que vemos emergir, da objetividade (Spillius, B. org."As controvérsias Freud-Klein, 1941-45. Rio de Janeiro, Imago, 1998) 
         De fato a psicanálise freudiana e inclusive Lacan, não permite decisão entre duas formações que podemos igualmente atribuir, como sua definição do que é objetivo.
            Por um lado, a objetividade é o que irá se produzir como o apreendido por uma mente já edipianamente construída, ou seja, ela (pré)-existe do lado de fora do sujeito, é o dado simbólico, racional-legal, do mundo intersubjetivamente válido. No limite, por esse lado, ela é o próprio objeto da ciência, e Lacan o afirma explicitamente, o sujeito construído do desenvolvimento edipiano é o sujeito epistêmico - esse que independente de ser ou não edipiano, é o do desenvolvimento para qualquer teoria em que se poderá encontrar deste a definição.
        Por outro lado, ela é exclusivamente o construído imanente do sujeito. Ela não pode ser assim generalizada independente do Édipo, e, portanto, a psicanálise nos fornece um aporte político do que é a legalidade, a partir da impossibilidade de se dominar por um conceito geral independente dele, o sujeito que de epistêmico se fez o homem médio, o sujeito de direitos. É por esse viés que a psicanálise se tornou oportuna ao estruturalismo, onde se fez a crítica do pressuposto da "totalidade social" como de um mundo de significados de valor, funcionalista.   
              Marjorie Brierley, em seu pronunciamento de 25 de outubro de 1943, algo crítico relativamente aos aportes de Melanie Klein contrastados com o que já havia sido obtido por Freud, defendeu o ponto de vista que a meu ver seria o de uma psicanálise voltada à objetividade no primeiro sentido.  
          Brierley não acusa propriamente, mas questiona a possibilidade de uma acusação a Klein, de "falta de realismo". Com base em que os adeptos desta haviam se apegado à noção de "objeto idealizado" como o mesmo que o "objeto bom" que ela havia definido. Mas assim não havia sido ainda devidamente contrastado ao objeto que a criança deve chegar um dia a concretizar segundo uma "prova de realidade", tal que mesmo se a ciência é conhecimento sistematizado, a idealização sempre é realista (p. 606, 7).
          Uma boa experiência infantil deveria, segundo Brierley,  corresponder "a uma reação a uma satisfação real, quer imediata quer alucinatória", enquanto o oposto seria sempre reação a uma privação real. Inversamente a que um objeto idealizado fosse o mesmo que um objeto bom no sentido de adequadamente libidinizado. Para Brierley, a pergunta importante seria se "a técnica da Sra. Klein em relação aos objetos bons, especialmente objetos maternos bons, promove esta espécie de solução irrealista" que consistiria em levar o analisando apenas ao ponto em que ele seria capaz de dividir o mundo entre coisas boas e más  conforme suas opiniões idiossincráticas.
      Em contrapartida, o pronunciamento de Melanie Klein na mesma ocasião, ilustra a meu ver a segunda perspectiva do objeto. Ela enfatiza que sua técnica analítica está centrada na transferência, isto é, na indução à figura do médico dos sentimentos represados no inconsciente do paciente, de modo que ele faz o papel, na mente deste, daqueles que foram suportes desses sentimentos na vida arcaica do sujeito.
           A ênfase aqui é nesse caráter arcaico,  a transferência impondo-se pela pressão que o analista faz sentir sobre as ansiedades primeiras, oriundas da culpa pelos sentimentos ambivalentes da criança. As mesmas que pelo parâmetro formativo-discursivo, definiriam aquelas que os antropólogos descrevem como presentes nas sociedades primitivas, como totemismo, canibalismo, etc., segundo uma inter-relação científico-humanística inteiramente constatável em Freud.
          Assim, Klein afirma crer " não descuidar das experiências reais do paciente, presentes e passadas, porque estas são repetidamente vistas por meio das situação de transferência". Assim, os "objetos internalizados" e "as pessoas reais" do presente ou passado do paciente, na situação de transferência são evocadas, mas pelo movimento entre o exterior e o interior, o real e a fantasia, movimento polarizado pelo analista.(618, 619)
           Ou seja, a objetividade nessa perspectiva de Klein está mais próxima do que a legalidade instituída como cisão absoluta de público e privado respeitaria, em função dela não ser totalizável por uma representação global suposta socialmente partilhável. Mas sim relativa à psique subjetiva, seus estados, defasagens ou capacidades próprias construídas na experiência edipiana estritamente subjetiva. Assim como a imagem da ciência cega à efetividade de si como pluralidade teórica e não unidade de definição, caberia mais na primeira concepção da objetividade suposta "realista".
          Se é certo que cada teoria está sempre supondo a unidade objetiva, i.e., está sempre determinando como as coisas "são" de um modo ou de outro, ainda assim se ela não é cega ao seu caráter de enunciação precisaria reconsiderar a natureza do objeto. Uma vez que ele nunca se estabiliza de modo a não haver outras teorias.
     Mas mesmo para Klein, as constantes edipianas são absolutamente estáveis, isto é, a priorísticas. É por essa via que podemos considerar a ambiguidade não de todo sanada. A princípio, o Édipo pode também ser colocado como para Lacan, em termos de evidência empírica, fato de experiência, e por isso postulado clínico e não "filosófico". Não é só que Freud realmente ouve as crianças ou mesmo mulheres adultas dizerem que pensam ou que viram - quando a análise os força a lembrar - a mãe com um falo, etc. Mas sim, como podemos conjecturar, que a realidade biológica da oposição do gênero é fato indeslocável com que a criança tem que se defrontar.
           Porém esse fato não é psicanalítico senão enquanto ele desdobra realidades apenas supostas igualmente factuais - a diferença sexual se torna "feminina" e "masculina" em geral, assim como papeis sociais normativos de "pai" e "mãe", universais.
            Na atualidade, a visibilidade empírica das sociedades não-ocidentais, tanto a descoberta de sítios arqueológicos antes desconhecidos como a intensificação dos contatos e permeabilidade das sociedades vivas, por um lado; e a heurística enriquecida à mão da interpretação das descobertas, por outro lado, ora desmentem que não havia desenvolvimento em nível de urbanização antes do despotismo imperial, ora desmentem que a questão da extratificação das sociedades selvagens se limite a hierarquia, uma vez que já se constata que atingem o nível de conflito e que há mudança social.
          A normatividade dos papeis se confronta agora à questão de pesquisa que veio a ser a equacionada heterogeneidade  de valores entretanto imanente a um mesmo campo social, ao invés do a priori homogêneo "cultural/ ideológico" que havia antes.
          Nessa decorrência, podemos hoje indagar até que ponto a sucessão das fases como a psicanálise interpreta, as quais ela conceituou em estrita homologia da informação antropológica dos costumes arcaicos que dispunha então, está condicionada não apenas pela distorção da época relativamente a essa informação, mas também e sobretudo pelo que julgou ser o telos, a objetividade não relativística, que sempre poderia ser a prioristicamente interpretada.
          Além disso devemos lembrar que a sucessão de fases psicanalítica é apenas uma dentre as demais formas na ciência da psicologia, que cobrem a sucessão dos acontecimentos pressupostos axiais à formação do ego e que tem lugar nos tres primeiros anos da criança. Por exemplo, Wallon utilizou a informação da época sobre o uso de máscaras em rituais tribais africanos, para conceituar a fase pré-ego-lógica infatil em termos da mesma linguagem expressiva, que ele julgou reduzida a "mímica", como o que incorporaria em si a alteridade.
           O importante à nossa crítica geoegológica é então a homologia intematizada até agora, que poderíamos postular entre as sucessivas posições do objeto "margem", o primitivo a anexar pelo ocidente por meio não só da força imperialista, mas da auto-concepção cultural como outro desenvolvido, e as fases psicanalíticas. Uma vez que em cada fase, é a própria objetividade que está em questão na ciência ocidental, e o que muda até a última formulação dicotômica, a estrutural.
          Sem dúvida a demonstração da homologia é coerente com as formas de anexação imperialista que igualmente se sucedem juntamente com os paradigmas, isto é, com o processo efetivo da "marginalização".
          Romantismo oral, quando se tratava da independência dos povos "coloniais" e assim, emergência da pan-legalidade instituída na emergência do sujeito pensável. Sádico-anal positivismo quando o primitivo deixa de ser indivíduo para se reduzir por Darwin à horda quase-animal, coletividade pura, e enuncia-se o "progresso" como razão brutal do expansionismo industrial. Fase fálica, a ambiguidade do neocolonialismo anarquista. Porém o genital estruturalismo, que seria a maturação da objetividade apenas relativa ao sistema, não foi como se pretendeu, o coroamento feliz da história, como início da era enfim descolonizada, desimperializada ao menos de direito, ao contrário do que se pôde ter acreditado entre os anos cinquenta e oitenta. O fim dos paradigmas na pós-modernidade implicou a mudança do próprio plano de enunciação, que agora é assumido pelo business ele mesmo, na sua forma expressiva como indústria info-midiática. 
       Assim, ao invés da genitalidade ter se demonstrado a finalização da trajetória inversível da evolução psíquica, há um retorno que poderíamos definir como neoanalidade. A geo-ego-logia permitira entender assim um fato descoberto na psicometria recente, que é a de adultos exibirem uma curva tendencial inexplicável a regressão do resultado em testes de moralidade piagetianos, relativamente aos já alcançados por eles mesmos na adolescência. Pois a meu ver, é justamente o que se deveria esperar se enfrentássemos a verdade quanto ao grau de ambiguidade dos enunciados teóricos que prescrevem na história a classificação do desenvolvimento. Todos eles tendo que ser confrontados de algum modo, à tangência do capitalismo e da pressão oligárquica sobre o desejo "ocidental".
      Na dominação neoanal info-midiática, o computador faz o papel que no sádico-anal positivismo foi o da técnica/indústria a que então se reduzia a inteligência e o ser histórico.
            A paralogia era aí o enunciado de que a subjetividade como autoconsciência reduzia-se à evolução da economia capitalista, e de que, sendo assim, não havia subjetividade operante, a psicologia reduzindo-se à  reflexão individual do dado externo segundo o esquema hoje refutado de sensação, imagem e ideia.
           Na atualidade, a analogia computacional reproduz a paralogia porém já na ambiência da "linguistic turn" que trouxe para a linguagem as questões que até então vinham sendo assumidas como da consciência. Assim a descoberta da linguagem na dependência do processo da formação da subjetividade é abstraída, regredindo-se a questionamentos ideológicos sobre a capacidade de "pensar".  
          Como Marcelo Dascal permite observar, mesmo as mais conspícuas formulações da linguistic turn foram assim reduzidas.
          Ao falar da coprimordialidade heideggeriana entre linguagem e espírito, Dascal faz ver que como noção foi retomada por Winograd e Flores para o que seria uma nova proposta computacional. Os computadores deveriam não "apenas refletir a nossa compreensão da linguagem", mas "criar, simultaneamente, novas possibilidades para o nosso falar e escutar ". (op. cit. prefácio de 2011). Precisaríamos de um Marx para traduzir o termo "computador" por "indústrias informáticas", de modo a tornar expresso o que é a realidade evidente, de que não há qualquer interação com um computador que não seja mediada pela logomarca e seus interesses ideológicos.
            Além disso, não há meio de se evitar que os computadores que não são restritos por legalidade instituída justamente a apenas instrumentos de escrita humana, venham a ser dispositivos patológicos, uma vez que não são constitutivos dos processos psíquicos subjetivos. Que a indústria está explorando de forma espantosa justamente essa possibilidade, de modo a criar, sim, apenas os piores choques mentais, al ém de censura do pensamento, teoria, capacidades de escrita, etc.,  é o que venho protestando em várias oportunidades em meus blogs. Dascal também se pronuncia contrariamente a Winograd,  e como um crítico do próprio Heidegger sob alguns aspectos.
            Na contingência de uma regressão, portanto,  os estereótipos info-midiáticos investem formas pré-egológicas de mentalidade - não havendo uma ciência que os ampare, como era o caso do pan-evolucionismo no sádico-anal positivismo.
         Inversamente à dominação info-midiática dos estereótipos totalizantes, na teoria pós-moderna está havendo a crítica dos discursos, a apreensão do que em cada horizonte de enunciação constroi a oposição estereotipada da qual se disseminam os enunciados próprios às posições hierarquizadas do poder.
          Paralelamente, os ativismos coerentes com o pós-modernismo estético e teórico são políticos e não anárquicos,  visando a legalidade como a cisão do público e privado que garante a este último a verdadeira liberdade, pela salvaguarda da segurança pública que implica a coibição de dispositivos de poder ideológico e/ou econômicos.
           Porém o pós-modernismo continua sendo uma vertente de questionamentos e produções teóricas, ao lado seja da dominação info-midiática, seja do que o capital e/ou ideologia investe nas instituições didáticas como permanência das doutrinas obsoletas. Não é só por isso, evidentemente, que um dos focos importantes da produção pós-moderna é a crítica dos paradigmas anteriores.
           Além de interpretações não esperadas pelos antigos a prioris, como a descoberta atual de que o anarquismo até Foucault, o anarco-sindicalismo de Chomsky e a tudo que se segue desde a new left, ao contrário do que dizia de si, convem muito ao neoliberalismo econômico, assim como à coalização de empregados e patrões para assegurar poder sobre consumidores compulsórios; há o fato de que a construção da objetividade continua sendo o foco das ciências humanas e do que elas expressam em termos dos processos histórico-sociais efetivos, psíquicos e epistemológicos.
            Apenas as humanities já são feitas hoje não apenas por cientistas europeus ou "ocidentalmente" limitados do ponto de vista dos referenciais culturais, assim como o campo estético já não se limita à importação cultural do que produz o ocidente, ainda que ele o produzisse por influxo do que descobrira do selvagem na era neocolonialista, cujos produtos estéticos iam circular na Europa na categoria de quinquilharias - até que as tribos produtoras fossem subjugadas ao trabalho de modo que perdessem as capacidades artesanais.
          Frente a tudo isso, cabe deplorar a situação brasileira na globalização. Se o neoliberalismo econômico é algo ruinoso para todo o mundo - como observa por exemplo Rorty em Achieving our country,  aqui a dominação info-midiática tem sido tão brutal que efetivou uma espécie de tampão a toda penetração pós-moderna, havendo censura até mesmo do estruturalismo e sobretudo da teoria do inconsciente. Pratica-se um funcionalismo tão já falseado que chega a ser anterior à forma modificada de Parsons em diante, conjugado aquele funcionalismo porém a uma "dialética" ridícula, que como se poderia esperar, apenas desdobra as formas mais perniciosas de anarquismo.
           Aqui o governo "globalizado" não se encarrega de sua função, que é conservar o que existe assim fomentando o seu desenvolvimento, deixando as mudanças à imanência histórica da sociedade. Ele se investe do papel de deus caprichoso, para se limitar à criação ou destruição de cargos e meios de vida estabelecidos.
          Não vemos há muito tempo o governo sanear o  megafavelamento que se verifica, apresentando programas de moradias compatíveis com o desenvolvimento humano, muito menos aumentar salários dos cargos que são obviamente constitucionais, e que estão em crise em nível estadual, intervir contra o abuso do poder econômico que está sendo aberrante, fomentar campanhas contrárias à disseminação do autoritarismo e dos abusos da força bruta, ou incentivar a poupança individual. Pelo contrário.
           Se as condições aberrantes da mais ostensiva corrupção vem sendo combatidas pelo processo de impeachment, não houve até agora sinal de mudança da mentalidade do abuso por uma legalidade reduzida ao poder de multinacionais e demais formas de capitalismo predatório. Os abusos que tem se verificado ao nível de tortura psicológica, configuram um regime que podemos designar de sistemática extorsão monetária e opressão do atendimento. Esse escrito conserva alguma confiança em que o governo após o impeachment contra a corrupção, abandonará o dirigismo imperialista e/ou ideológico, e voltará a se encarregar do seu papel como à sanidade política.
          A situação brasileira reflete o que a geo-ego-logia conceitua como seu fenômeno complementar, a alter-ego-logia. Se a anexação da "margem" pelo capital-imperialismo tem sido feita como dominação cultural dos paradigmas do desenvolvimento, na margem eles são importados como a letra do próprio regime desenvolvimentista. São estilizados para reduzirem-se, de pesquisa em devir, a receitas aplicáveis, de modo que a hierarquia de classe na margem é articulada tanto pela funcionalidade da agro-exportação primária ao esquema industrial restrito ao "centro", como pela restrição das instituição pedagógica a reprodução do discurso do "saber" paradigmático do "centro".
          Assim não há campo de prova na margem subdesenvolvida  - onde está o suposto primitivo assim como a condição mesma do subdesenvolvimento -  para o discurso do que a anterioridade ao desenvolvido é.
          Além disso, a instituição pedagógica funciona recalcando não apenas a heterogeneidade que poderia lançar dúvida sobre o paradigma, mas a interlocução real do pensamento local a ele, na forma que seria a do cotejo com a realidade pensada local. A instituição é a ocupação do paradigma que recalca ao nível da personalidade, tudo o que não condiz com seu caráter suposto aplicado.
            Uma crítica do dirigismo midiático, ou da ideologia corrente em produtos de mídia, não se verifica na vigência alter-egológica, por exemplo, mesmo antes da globalização - porque a mídia é francamente cobiçada  como instrumento do regime paradigmático. Além disso, efeitos de discurso são patentes, como a desvalorização sistemática do que é registrado como produção local estética, sendo a teórica realmente achincalhada desde a instalação universitária de princípios do século XX.  
            Como vimos, na pós-modernidade ser apenas o alter-ego do centro - como reprodutor do teórico europeu ou norte-americano -  já não reduz necessariamente toda a significação do produtor cultural em países do terceiro mundo. Nem se trata de investir algum "saber" que seria do suposto primitivo puro, que como assinalei não existe como correlato de classificação psicossocial. Trata-se, sim, da interlocução cultural elevada a níveis que devem enriquecer a todos os focos de produção interessados, do terceiro e do primeiro "mundos". A designação dos "mundos" está preservando o planisfério do conflito norte/sul atualmente vigente, que considero como a subida à consciência da geo-ego-logia em processo desde a modernidade.  
           Porém a defasagem brasileira desses anos recentes quanto à superação da alter-egologia nas instituições pedagógicas, editoriais, midiáticas, etc., já especifiquei de modo suficiente para os propósitos deste estudo. Repetindo apenas a confiança que depositamos na superação desse triste quadro neofascista.
          Quanto à alter-ego-logia como referencial de pesquisa ou leitura da produção histórica na "margem", é a proposta complementar à da geo-ego-logia relativamente ao "centro".
  
     c)

           O diagnóstico de Lacan relativamente ao pequeno Hans ilustra perfeitamente o desdobramento não justificado da objetividade do sexo (biológico) à do gênero (cultural), praticado na psicanálise como um dos focos exemplares da pressão geoegológica sobre o plano da enunciação científica.
           Outrossim, é um meio eficaz de contraste crítico ao enunciado anarquista de Sorel, ao que  que poderemos voltar como enunciado perverso da censura da legalidade.
            Os problemas que o pequeno Hans, então entre quatro e cinco anos de idade, apresenta, são listados em torno de sintomas neuróticos, a fobia de cavalos e a angústia, e sintomas perversos. Quanto a estes últimos, há em primeiro plano na análise lacaniana, o fenômeno de contaminação do incesto, daí o caso de Hans ser o da criança metonímica e não metafórica. Sendo o caso da mãe a tipicidade do penisneid, a inveja feminina do falo, ela utiliza o filho como falo de si mesma.
         Hans não é assim a metáfora do amor da mãe pelo pai, mas a metonímia do falo do pai possuído imaginariamente pela mãe como se fosse dela mesma. E Hans se comporta como essa metonímia viva. Entre a criança e a mãe, enquanto esquema imaginário, nos informa Lacan, há um termo a mais que entretanto não funciona como um terceiro mas deve impedir que o terceiro real, o pai real, intervenha para romper a relação dual. O termo é o falo de que carece a mãe, ou seja, é uma presença, a constatação de que algo existe,  que só é sentida enquanto ausência.
           Os tres termos que devem sofrer a crise da intervenção de um quarto, até que se rompa o dualismo e a estrutura a três realmente se estabeleça como simbólico, eis o que deve ser, porém nesse caso temos os desvios que devem explicar a neurose e a perversão do menino.
          Além de ser o falo da mãe, engajado nos acontecimentos do Édipo e assim beirando a realização imaginária de si como marido da mãe que se comporta de um modo indulgente demais para que se possa atribuir a ela a extensão de sua penisneid na relação com o filho que portanto tem sim algo de incestuoso, a perversão de Hans atinge a linguagem. Ele se põe a emitir sentenças que atribuem dois predicados contraditórios a um mesmo sujeito, como quando afirma que viu a mãe nua e de camisola, ou quando conta que veio com a avó no trem, deixando o pai na estação, e que voltou com o pai no trem, juntamente com a avó.
          Lacan conduz a releitura do texto freudiano que registra o tratamento do pequeno Hans consigo. Até o ponto em que o diagnóstico lacaniano do caso se expressa como que reunindo as peças do puzzle formado pelos episódios registrados, que cobrem os acontecimentos cotidianos narrados pelo menino e pelo pai que tiveram lugar ao longo do tratamento, e as irrupções sintomáticas: manifestações da fobia na presença de cavalos, desde a primeira  manifestação que precipitou o tratamento; evolução da angústia, que inclui um episódio delirante, quando o menino conta ter visto as duas girafas, uma grande e uma pequena enrolada sobre si mesma. 
             Sendo o pai discípulo de Freud, a caminho de se tornar psicanalista, o tratamento não é só a transferência, a relação do médico e do pequeno analisando, mas também inclui orientação do comportamento do pai pelo "professor" Freud - como o menino o chama. O menino está perfeitamente a par de tudo isso, e manipula de modo jocoso, com verdadeira habilidade, a relação assim instaurada, visando induzir o resultado do que irá se passar entre Freud e o pai em torno do que ele próprio diz ou faz.
            Para Lacan, o diagnóstico da fobia do pequeno Hans é justamente a fraqueza do pai, que por ser demasiado gentil com o filho, não realiza o corte que este requer como "castração". O pai não logra provar a ele que o tamanho maior do seu falo, como o que Hans terá ao crescer, realmente implica autoridade e segurança. O sintoma de Hans com os cavalos, sendo que há cavalos na paisagem de sua janela, para Lacan traduz o medo de que a casa da família seja desfeita.
          Mas Lacan reporta ainda que, sendo a percepção do próprio sexo um momento que coincide com o exibicionismo e a masturbação infantis, e via de regra havendo repressão, no caso de Hans por parte da mãe, Freud havia instruído o pai para dizer a Hans que sua fobia é uma bobagem - Dummheit - ligada ao seu desejo de se aproximar da mãe. Freud mesmo diz ao menino que o cavalo lhe provocava fobia, sendo associado a malvadeza e à possibilidade de mordida, porque representava o seu próprio falo cuja exibição devia ser reprimida.
            E Freud também instrui o pai para dizer ao pequeno Hans que o falo que ele supõe que a mãe tenha não existe. Ora, é aqui que o pai, segundo Lacan, falha completamente. A negação disso que Hans está procurando tão ardorosamente seria a castração inconscientemente desejada, que então viria a calhar. Porém Hans responde com mais força, inventa a estória que viu a mãe nua e de camisola mostrando o Wiwimacher dela - como ele o chama -  e o pai fica detido nas considerações sobre a contradição do filho, entre a mãe estar nua e ao mesmo tempo vestida de camisola. Por onde Lacan constata que ele não era lá muito inteligente. A questão sendo justamente essa no jogo do filho, ver sem ver totalmente, ver o que está sob um véu, etc.
        Previamente Lacan havia insistido no fato da mãe deixar que Hans dormisse na cama dos pais, ainda que o pai a isso a princípio tenha se oposto. Temos assim motivos para considerar que a mãe era dominadora e que o pai mostrava-se dominado por ela perante o menino, razão de sua angústia, além do que seria natural na decorrência do confronto com a feminilidade da mãe dada a fase da descoberta do seu próprio sexo.
            Quando Hans já estava crescido, com dezenove anos, de fato os pais já estavam separados. Nessa ocasião em que reencontrou Freud, foram mostrados a ele os registros da sua análise infantil, e lhe indagaram se lembrava do delírio e dos sintomas, ao que respondeu negativamente, exceto para o registro dele ter visto Ana, a irmãzinha, nua.
          Hans se curou ao longo do tratamento, transformando a indução terapêutica numa elaboração onírica e - como Lacan o designou - mítica, intensas. Os mitos tem aqui uma importância primordial, como vimos.
             Na elaboração onírica o que está ocorrendo em nível imaginário, a relação com o falo ausente da mãe, e em nível real, a apreensão do seu próprio falo e o do pai que existe verdadeiramente, está encontrando o caminho para o que deveria seguir-se normalmente sem o desvio patológico, isto é, a formação do simbólico, a internalização da legalidade assim como da atribuição dos papeis sociais que individualizam as pessoas nas relações invariáveis que mantem entre si. Ou seja, as pessoas se tornam dotadas de significado intrínseco quanto a suas ações subjetivas. A vigência do simbólico reúne pois essas duas características, a invariância da legalidade que generaliza independente do caso particular, e a individualização dos agentes que atuam conforme significados compreensíveis, segundo seus interesses próprios, num meio social-legal.
          A um dado momento crucial, Hans sonha com o instalador que para Lacan, representa a castração realizada, ainda que não pelo pai, por esse substituto onírico. Então Hans se cura.
            A partir daí Lacan se põe a tecer considerações mais amplas utilizando-se do caso do pequeno Hans como da exemplaridade dos acontecimentos edipianos em termos do que eles dispõem como a priori do gênero, o significado da masculinidade e da feminilidade. O homem é o ser do simbólico, a mulher apenas do real que desdobra, antes do Édipo se completar pela castração, somente o aprisionamento imaginário da identidade, como da criança com a mãe - fase universalmente homossexual. A heterossexualidade só se realiza pelo terceiro termo, isto é, pela efetivação do falo como atributo exclusivo da autoridade legal.
           A legalidade implica essa capacidade de reconhecimento como da atribuição legítima de um predicado a um sujeito, é a regularidade da lei da linguagem, que nós realizamos como o esquema da langue em nossa mente a partir da associação de cada partícula com uma dos componentes da constelação edipiana. Assim vemos que a atribuição não teria critério de validez se não fosse de algo a alguém de modo que não poderia ser desse algo a quem não o possui.
             A partir da realização do simbólico pelos acontecimentos do Édipo e da castração, note-se que nenhum de nós deixa de pular quando constata uma mentira na forma da atribuição de um atributo a um sujeito que não o possui  - a menos que seja uma questão de indulgir com o auto-interesse e estar sabendo perfeitamente disso. No consciente pode-se mentir, no inconsciente, não. A prova do inconsciente é pois a atribuição da dignidade.
           Para Lacan, pois, a exemplaridade do pequeno Hans não havia sido antecipada apenas por Freud - que pode sempre lhe dizer: antes que você nascesse, eu já havia inventado a história de um pequeno Hans que viria para se apaixonar pela mãe e ficar com medo, raiva e ciúme do pai. Mas sim Sócrates, que devia saber por si mesmo que a "oblatividade perfeita" entre homem e mulher não existe, e que a mulher, em especial a esposa, tem "essencialmente" com relação ao homem, a função de ser "a provação da sua paciência", isto é, "de sua paciência com o real". (op. cit. p, 385)
           Podemos nos conformar com isso? É interessante que Sorel tenha colocado o que designou "a ética da violência" em termos de um só núcleo, a dignidade. Equaciona o que Marx já havia demonstrado contra o socialismo utópico, que é algo virtuoso porém inefetivo por não mostrar como se iria obter a justiça social que apenas se propõe definir.
            Sorel avança porém a essa conclusão de que na base de todas as teorias da moralidade - em que poderíamos a meu ver reconhecer a intenção profunda do que Marx chamou socialismo utópico - reside a premissa de que a decisão moral é algo instantâneo, que "vem das profundezas da natureza do homem" e pressupõe sua fonte como alguma convicção que deve dominar totalmente a consciência, de modo a agir segundo ela antes mesmo que o cálculo e a reflexão tenham tenham tempo de ocupar sua mente. (op. cit. p. 207, 8)
      Na verdade é improvável que o mito não tenha essa força, como Sorel previa, porém assim a incompatibilidade do mito ao simbólico, na premissa lacaniana, torna-se algo estranho. Não vemos porque o mito não seja um esquema da castração, já que habitualmente são histórias que legitimam uma autoridade, e ao longo de sua releitura de fato Lacan reintroduz as elaborações míticas do pequeno Hans na trajetória do falo-significante que irá arrumar os elementos do imaginário de modo que se libere a emergência do simbólico.
              Porém como sublinhei antes, Lacan primeiro limita a função do mito à elaboração imaginária assim como à conservação da relação dual, da posição materna. Mas quando ele fala da castração que deveria ter sido a ação do pai, inversamente, não se expressa em termos de uma ação legal, de modo que pudéssemos reconhecer a diferença do poder absoluto que o mito "legitima" e o poder relativo que a legalidade constitucional institui. Mas sim, como se segue: "Para que o complexo de castração seja pelo sujeito verdadeiramente vivido, é preciso que o pai real jogue realmente o jogo. É preciso que ele assuma sua função de pai castrador, a função de pai sob sua forma concreta, empírica, diria quase degenerada, sonhando com o personagem do pai primordial e a forma tirânica e mais ou menos horripilante soba a qual o mito freudiano a apresentou para nós. É na medida em que o pai, tal como existe, preencha sua função imaginária naquilo que esta tem de empiricamente intolerável, e mesmo de revoltante quando ele faz sentir sua incidência como castradora, e unicamente sob este ângulo - que o complexo de castração é vivido". (op. cit. p. 374)
              O mito freudiano, a utilização freudiana do mito grego do Édipo, está por assim dizer  na borda, nessa condução lacaniana das coisas. Entre o mito primitivo e a leitura científica do inconsciente mítico. Ele não nos explica como a transição foi feita. Apenas nos informa sobre o que deve ser feito a partir de uma violência primeira, não-saneável de todo, a condição deficitária e insaciável de uma parte da humanidade, a mulher. E se o que deve ser feito é a castração do que ela não tem, assim como do que a criança pretende absurdamente ter/ser, não é obviamente para que tenha.
            Um outro problema na interpretação lacaniana dos fatos patológicos relativos a esse caso, é que ele não equaciona nenhuma rejeição do pai, e até mesmo coloca aí a expressão do que deduziu. O menino, instruído como é no mito do Édipo uma vez que já está por essa porta familiar inteiramente dentro da clínica psicanalítica, endereça ao pai sucessivas indagações sobre a contratransferência: ele devia sentir ciúmes desse pequeno Hans que quer dormir com a mãe, e se ele não o demonstra, porque não sente? Eis o problema, nos diz Lacan, o menino acertou na mosca.
          Porém o próprio Lacan nos informou da rejeição que o pai realmente expressou, a partir da ordem, ainda que falhada, de que o menino não ficasse na cama com a mãe. Essa rejeição jamais foi equacionada por Lacan, e talvez a demanda do menino não fosse que o pai não sentisse esse ciúme, mas sim que ele fingia.
            Creio que o menino indagava mais, "então, você não sentiu?", sabendo que o pai o expulsou de perto da mãe, do que propriamente "você não deveria estar sentindo?" aquilo que jamais demonstrou por qualquer sinal. E se o pai mente, ou o lança numa dúvida, é provável que o menino já houvesse ouvido falar desse Freud que emula o pai e que coloca em questão a sua autoridade antes que uma fobia o trouxesse a um frente a frente consigo mesmo. O pai sente o que sente e conduzirá as coisas conforme sua autoridade, ou depende de Freud lhe dizer, de modo que toda a casa está sob tal dependência - Freud, o déspota cujo sim e não pendem sob todas as cabeças como a espada de Dâmocles...?
           Tornando a Sorel, podemos notar em que consiste a perversão do enunciado da violência contra o Estado como o propósito mítico que deveria, como o Édipo freudiano, no entanto operar o trânsito definitivo do inconsciente à consciência, da tirania à justiça, da fantasia à verdade.
           O objetivo de Sorel na revisão dos moralistas, de Durkheim a Proudhon por exemplo, é mostrar o caráter fundamental do mito nessa ação sem mediação que precisa ser o cumprimento da justiça na prática social. Assim a falácia das teorias da moral, já não só burguesas mas igualmente das esquerdas que com a burguesia compartilham a fantasia da paz social como o meio, se tornaria flagrante, uma vez que a ação que se requer como moral é na verdade sem mediação, mas o que as teorias propõe é a mediação da paz social e do cálculo legal com a finalidade de obtê-la.  A imediatez, pois, é o vinculação do argumento, se a ação resgata algo de único como a dignidade atribuída.
            Aqui, pois, estamos no âmago do platonismo, como também em Lacan - a idealização. A dignidade não é o que está em questão, embora esteja se tratando de sociologia e política jamais se a tangencia como o que está em devir e é heterogêneo na história. É o dado bruto do ser humano enquanto tal, o que preside qualquer capacidade de questionar.
            Em Lacan o pai simbólico, nome do pai, Deus como o estruturante da linguagem atributiva, preside a capacitação do intelecto epistêmico, e podemos estar tranquilos de que Hans o atingiu, por esse momento em que ele começa a idealizar Ana, a irmãzinha, como esse algo de que se pode lembrar sempre, do mesmo modo que a reminiscência em Platão é o que ele "devia realmente ter" como "algo que explicasse nosso acesso ao mundo superior." (p. 379).
            Hans inventara um mito para abstrair o fato de que a irmãzinha, que ele considera que há dois anos já tinha ido com a família a Gmunden, naquela ocasião estava ainda no ventre da mãe. É que eles a haviam levado num cofre, na traseira do carro, "e que ela ali levava uma vida divertida." O que Hans não pode tolerar é que isso de que ele se lembra pudesse ter sido um dia alguma outra coisa, algo diferente.
           A ideia é o fundamento intelectivo do que é invariável, e se ela começa como reminiscência, no âmago do imaginário, ela é não menos a porta de entrada do real, na ambiguidade do objeto que acima visamos como ainda o caso na psicanálise. Lacan está bem cônscio de que a irmãzinha de Hans não era a mesma criança de dois anos, quando ainda estava no ventre da mãe, porém ao mesmo tempo a ideia platônica como reminiscência é a elaboração primordial daquela compensação intelectiva que faz ciência abstraindo a heterogeneidade do real.
          Podemos estar sendo algo injustos com Lacan, na medida em que ele é quem nos cede a melhor terminologia para expressar a irredutibilidade do objeto como da experiência científica ao dado da experiência qualquer. A ciência e a certeza são "simbólico", a experiência qualquer é "Real". Newton pode ser deslocado por Einstein, ás duas teorias permanecem científicas, mas em se tratando de Real não há obviamente contradição na experiência qualquer. Não se dirá ainda assim que a ciência é irreal.
           Mas que a asserção está numa relação com a realidade, assim como a linguagem é interpretação e não código ou sinal que desencadeia automaticamente determinada ação. Porém ainda assim Lacan reintroduz aquilo que o "simbólico" devia conjurar, na medida em que universaliza o platonismo como a origem - mais precisamente o Teeteto - da trajetória do significante que um dia deveria resultar na psicanálise. Ao invés de ver nesse enunciado do simbólico, mais autenticamente a profunda ruptura para com o platonismo. Assim também, que a castração incide sobre uma categoria do Ser, que o desenvolvimento permite ainda uma dicotomia Real, é o que estamos questionando como limite do discurso analítico.
         Sorel envereda o enunciado da dignidade, como vemos, pelo viés platônico do signo indecomponível. Mas a perversão aqui está nisso pelo que a dedução da legalidade como mediação se endereça à causa da violência como ação Real, e, portanto, não mediada, quando o que vemos porém é que o objetivo da ação é o fundamento da legalidade enquanto justiça social.
           Na verdade a crítica de Sorel volta ao plano histórico do enunciado, quando se trata de provar que na efetividade a legalidade apenas repõe a injustiça social. Ele se utiliza então de vários exemplos da efetividade da época. Mas assim se poderia afirmar que o modo como se está exercendo na prática a letra da legalidade, cuida de reintroduzir a diferenciação estamental de antes, quando não era o caso dela. Se a nobreza feudal podia apelar para o rei, mas os plebeus não, eis o que se repõe num aparato institucional que condena de antemão as requisições de classe e status não condizentes com as daquelas outras que ele inversamente absolve de antemão. Hoje em dia, ainda, "profissionais liberais" (formados) e categorias de políticos "importantes"  não vão para a mesma cela que os demais...
              Ao invés, Sorel recusa a legalidade e pretende, como corolário, reintroduzir a pura vigência do mito feudal - abstraindo perversamente a conexão de mentalidade estamental e ausência de legalidade constitucional. O verdadeiro problema introduzido pela vigência do capitalismo, assim como o verdadeiro problema em geral - de que não há legalidade real se efetivando se o que há é mito e/ou corrupção -  assim como a rejeição castradora por parte do pai real é simplesmente abstraída, relegada ao impensável e formalmente negada.
            Mas como vimos, a Greve Geral não conjura realmente o status utópico da ação justa. Em se tratando de regime, ela apenas responde ao enunciado da realidade do capitalismo enquanto irredutível à justiça.
           A dedução desde aí, da inexistência da legalidade, é a falácia como vimos, como se a legalidade fosse a impossibilidade do crime quando na verdade ela existe por subentender a transgressão possível. As leis contra o abuso de poder econômico visam a dominação do cartel que porém, desse modo, não teria sequer como se diferenciar da economia legal. E se as leis existem, o que se interpõe no caminho de sua eficácia é o que se deve combater, não o contrário.
           Porém examinando o caminho da falácia, o que ela distribui é o caráter de ser em ato da plutocracia e o caráter do ser em potência do proletariado que a sustaria a partir da Greve Geral. A potência permanece pois naquilo que na psicanálise é a posição feminina, o falo oculto que pertence à mãe e que pode ser suplementado pelo pequeno falo que reside nesse filho, enquanto a plutocracia os iguala na armação imaginária do regime.
           A posição teórica do anarquismo - coerente com a totalidade funcional-hermenêutica -  reproduz o complexo de castração, porém convindo nós que nela alguma coisa está efetivamente sendo negada, o falo real já admitido, do pai, como a legalidade já instituída na história.
           A pervesão dessa posição, ao contrário do que parece pensar Lacan,  não é típica apenas pelo que demonstra o seu reverso, na forma da neurose - a saber, que a castração, a legalidade que põe termo à transgressão como ao incesto ou a usurpação do grande pelo pequeno, do pai pelo filho, é necessária, e então se ela não ocorre  o sintoma sobrevém.
              Ela é típica em si mesma, como esse furo de funil pelo qual todo o inconsciente tem que se projetar no a priori do familiarismo monogâmico moderno-ocidental, onde as posições não hierarquizam apenas as condições de quem protege e de quem tem que ser protegido, de quem é racional e de quem ainda não é, mas sobretudo o gênero, a sexualidade perigosa da mulher na medida em que ela pode romper o sistema da propriedade, e, primeiramente, da propriedade afetiva.
           O que estamos questionando aqui é o próprio dilema que a psicanálise introduz, na medida em que recusamos que ele esgote a problemática antropológica do gênero. Tratando-se do dilema entre haver uma legalidade, mas ela depender da repressão da sexualidade feminina (poliandria = "matriarcado"); ou haver apenas a oscilação entre o déspota homem ou mulher - sendo porém toda oscilação apenas efeito de aparência, porque a autoridade é o inconsciente do falo, e onde ele não desdobra senão a tirania, eis apenas o falo pré-edipiano, etc.
           O que estamos questionando é o que a antropologia mais recente nos revela, como a possibilidade de sociedades organizadas e urbanas, não pobremente tribais, porém organizadas não por um poder despótico - de modo que não há déspota homem ou mulher e as próprias condições do gênero não são protótipos de hierarquização necessária do ponto de vista da libido.
          A democracia já não está registrada como pioneiramente introduzida por gregos que apenas estariam especializando um tipo de poder feudal - os aqueus como origem do "ocidente" nessa acepção de introdutor da legalidade. Essa legalidade que seria na raiz apenas a modulação do poder patriarcal. A democracia é bem mais velha do que parecia, e o Sumer de quatro ou três milênios antes de Atenas, cuja escrita pré-acádica foi decifrada algo recentemente, vem sendo interpretada como regime bem aparentado ao ideal contemporâneo - uma espécie de socialismo democrático. Se não o realiza na formalidade da nossa letra, não é tampouco isso o que se esperaria, mas sim algo que não se reduz ao despotismo e à segregação do feminino quanto ao status de "pensante" e responsável pelo que faz.
           Ademais o enunciado soreliano denegatório é ambíguo. Ele não expressa realmente que não há a legalidade "aí", mas que ela não se efetiva. Já entre Weber e Freud, não é fácil decidir se o segundo realmente reduz a ambiguidade da sociologia do ideal-típico do primeiro. Por um lado, o ideal-tipo racional-legal do ocidente moderno está reduzido à própria vigência da empresa capitalista suposta racional por ser ação ajustada aos objetivos (lucro); por outro lado, e por isso mesmo, eis a dominação mais conspícua da história - obviamente ninguém o ignora.
         A irracionalidade fica para a moralidade, assim como para o mito. Eles são, asim como são todos os valores, porém não podem se explicar ou justificar quanto aos fins.  A totalidade primitiva está reduzida aos valores, porém é sem conflito, etc.
          A chave, a regra de ouro, da análise do mito assim como da psicanálise do discurso, para Lacan, é aquela que inverte o hábito que temos de visar o significante como mero instrumento do significado. Inversamente, o que existe é a constelação significante por um lado, como o conjunto que pode ser listado de termos nucleares do discurso. E por outro lado,   o jogo de remissões dos significantes entre si, desordem sistemática que produzirá, como um terceiro termo, um efeito do jogo, o significado.
          Assim o significante é infixado, ele circula de significado em significado no mito, como Lacan se demora em exemplificar nas temáticas do pequeno Hans. Ao articular-se o simbólico, a circulação não se deterá, mas ela se tornará lei associativa da langue afinal universalizada: sintaxe estrutural por um lado, semântico-pragmática da atribuição por outro lado.
           Há um falo atuando entre todos os vazios que assim já não existem no inconsciente que a tudo reune e articula, enquanto que na consciência clivada da humanidade a irredutibilidade do gênero já se instituiu na regra do parentesco e como ética de Si.
            Meio pois, de melhor se classificar o que se conserva mito e o que subiu à filosofia e à ciência.
          Essa "desordem", Sorel também falava dela como o que ele não conseguia expurgar dos seus próprios escritos, e como algo que ele havia desistido de fazer. Comentando as críticas de que havia sido alvo por incorreções quanto a regras de escrita, e como que justificando-se por não ter alcançado a notoriedade de escritores mais célebres, ele confidenciava a Halevy: "Tentei tornar o texto mais claro por numerosas correções de detalhe, mas não fui capaz de fazer a desordem desparecer". (op. cit. p. 26)
          Nessa ocasião ele recusa o expediente de se amparar em escritores que a exemplo de Rousseau,  ainda que célebres, foram também alvos dessa espécie de crítica, e, inversamente, assume os "incorrigíveis vícios" dos seus próprios escritos. Em seguida, porém, de fato não os assume. Afirma expressamente algo tão estranho a meu ver quanto que naquela altura da história as regras de escrita haviam sido finalmente estabilizadas e por toda a gente seguida - quando inversamente se trata nessa época do rise das vanguardas estéticas que estavam rompendo decisivamente com a regra extrínseca.
           Porém o afirma para evidenciar que tal consolidação resultara da massificação dos livros recebidos com interess didático, quando ele, bem inversamente, estava interessado em se despir de todos os condicionamentos já recebidos, e descobrir por meio de suas pesquisas verdades não antes evidenciadas. A aparente falta de método resulta de textos produzidos como coleção de anotações de pesquisa acumuladas por anos em cadernos que guardavam ainda tudo o que permanecera oculto. Sorel pode assim ser associado à vanguarda, mas na imanência do pensamento, que de modo nenhum restaria desapercebida de sua ruptura.
           Como espero ter ressaltado, a sua crítica do capitalismo como plutocracia conserva bem mais atualidade que a fórmula weberiana da empresa racional-legal. Porém é justamente a reposição da legalidade como a verdadeira evolução  psicossocial, não relativa ao todo da história e da antropologia, mas ao entorno metafísico do "ocidente" oligárquico, que na ordem do pensamento  seria transgressiva a ambos, a sociologia de Weber e o anarquismo de Sorel, como a um parâmetro de época que já não podemos considerar a nossa.     
      ============  (finalizado a 06/06/2016)
     
       Anexo em 8/06  
  
         Sobre o que vimos, alguns aspectos da crítica geoegológica precisam ser ressaltados e alguns temas requerem desenvolvimento. Enfatizando meu desacordo com a interpretação de Lacan sobre o pequeno Hans, a meu ver as duas girafas  do delírio, a grande e a pequena, são bem mais simplesmente do que a mãe como sistema e a mãe como integrante do filho. A meu ver são de fato o pai e o filho. Porém o maior e o menor transcendem o Édipo enquanto assimilação psíquica do falo condicionada pelo desvanecimento da fantasia da mãe ela mesma fálica. Isto é, enquanto condicionada pelo a priori psicanalítico da primeira "teoria" infantil como identidade do gênero sexual.
           Creio que Hans expressa a angústia da realização da temporalidade interposta à ideia do seu crescimento, que está condicionada pela precedência do modelo paterno. O falo é realmente o centro da estória, mas a intromissão do discurso psicanalítico tão minuciosamente explicitado a Hans torna questionável a dedução da fantasia da mãe fálica como algo espontâneo. 
           A girafa pequena  do delírio estava embolotada sobre si, ele narra, amassada, e então para exemplificar aos pais atônitos, Hans embolota uma folha de papel, jogando-a à frente, mas sentando-se em cima dela assim que pousa. Aí onde ele senta, ele é. A demonstração aos pais do significado não se completa antes disso.
         E esse amassado testemunha da confusão psíquica em que a criança é lançada a propósito da condição da infância a partir da revelação de que ela é provisória. A mudança não é realizada ainda como uma noção coerente. Ao invés, só há a destruição de algo, se nesse mesmo lugar deve ocorrer a  superveniência de outro como do tamanho adulto que é o do pai. Os sonhos sucessivos de Hans o assinalam - os agentes são mecânicos que se introduzem para tirar-lhe o traseiro como se fosse um móvel, a pia ou a banheira, para que possa depois receber um novo, etc.  
          A angústia da realização psíquica da temporalidade, encontramos na história como a sua própria emergência científica, na decorrência do romanticismo. Estão por se desenvolver devidamente enquanto tema de estudos, as relações de história e mito nessa emergência. Por um lado, o enunciado geoegológico para si "ocidental" assinala o Ereignis, o acontecimento apropriador ou fundação, de si como a modernidade. Ela é o nascimento do mundo histórico que está consciente do devir, ao contrário da anterioridade mítica. Ela é também a realização da história como o que se cumpriu em termos de propósito humano na emergência da historicidade, a saber, o sujeito e a legalidade. Por outro lado, o historicismo vem sendo associado a esse primeiro tempo da história, o romântico, como o que se vem criticando em nome da estrutura, justamente porque nele a história é função da cultura como do mito - não havendo o espaço crítico da ideologia, o que sobrevem apenas com Marx.
           O romantismo introduziu com o sujeito a noção de inconsciente, porém enquanto o infinito que abrange as criações por vir das culturas, aí onde os mitos intervem como significados de valores que informam os motivos das ações históricas. A legalidade enquanto constituição nacional, respeita pois o limite da cultura como particular-universal, ao mesmo tempo uma região de sentido determinada por sua irredutibilidade às outras enquanto língua, e uma problematização ilimitada que pode ser de algum modo interpretada em outros horizontes culturais, sendo sistema.
          O sujeito é então a história de sua con/formação cultural, e o romantismo pensa em termos do inconsciente como duplo do sujeito que se apreende já adulto e con/formado. Esse duplo anterior a toda conformação, mas que só pode se apreender na problemática dela, e de quem, entretanto, se espera que a cultura se cumpra como devir, não como ser. A hermenêutica "divinatória" à Schleiermacher deve apreender o inefável ao outro, a língua desse duplo que é não obstante o cerne de si do mesmo. A originalidade da enunciação. O romantismo pensa a língua como miscigenação na história.
       A psicanálise vem interpretando o duplo romântico em termos de patologia - do escritor (Rank) ou social (Freud). Porém ele se estabelece como inconsciente na letra das teorias romanticistas que tentaram variamente o explicar, havendo o Fantástico literário que o traveste de acontecimento cênico. A ironia romanticista é a figura pela qual se conjurava a angústia da história, aquele momento em que o futuro já começou mas não se sabe ainda como o presente pode ser deslocado sem destruir a identidade mesma que uniria a mudança ao trânsito temporal de um referencial por isso mesmo conservado. O sentimento angustioso da passagem é revertido na ironia como a encenação da personalidade recusante da ficção ideativa do platonismo, ela sim votada ao estatuto maníaco da fantasia. Na ironia permitimos que o enunciado seja, mas embarcados na viagem do tempo enunciativo que irá transformá-lo em nosso momento outro da enunciação. A fissura do tempo que nos percorre é agora o operador que circunscreve um caminho, como a nós mesmos. 
           Aqui meu desacordo com Lacan não poderia ser excedido. A terapia do pequeno Hans com Freud foi exitosa, sem dúvida, embora Lacan pense que não chegou a conjurar totalmente certos resultados indesejáveis, de modo que se poderia prever que o jovem Hans seria um sedutor tirânico, um don Juan verdadeiramente despótico. Porém creio ser mais prudente observar que não sabemos se ela foi exitosa por causa do método ou devido aos talentos de Hans em sua réplica a ela.
             Não podemos negar que ela errou, ao confrontar diretamente a criança com o Homem futuro = ele, como com o Real, construindo assim a aporia dessa criança enquanto existente. O pai discípulo de Freud, mesmo antes que ela começasse, já era esse confronto. Freud, a dominação do porvir, a negação da independência existencial do filho como do pai.
           Piaget teria mais a nos ensinar sobre a construção das capacidades cognitivas necessárias à complexa combinação em nossas mentes, dos conceitos de permanência e mudança que articulam a temporalidade de um mesmo historial. Ele não supõe, ao contrário do que Lacan parece fazer, que essa estrutura está disponível inata. Como Piaget nota, a mistura é uma noção posterior, assim como a mudança.   
          A crianças pequenas, mostra-se uma caixa com linhas de pedras brancas e pretas, a qual fechando-se e sacudindo-se, pergunta-se à criança como se apresentarão as pedras ao abrir. Ela responde que as pedras brancas estarão de um lado, e as pretas de outro, lados estes alternados ao que se encontravam previamente, e não supõe jamais que irão simplesmente estar misturadas. Também a qualidade é prévia à quantidade - inversamene ao que supunha Kant. E o objeto, que só começa a ser vislumbrável enquanto tal bem depois do nascimento, jamais é apreendido sem relação com seus deslocamentos de lugar - de modo que é aquilo que a criança segue quando se movimenta, a princípio olhando para onde ele estava ao invés de para onde ele foi.
          Hans é exemplar quanto a isso, e vemos que seu pequeno mito da gravidez como cofre que porta alguém que já está aí, pode e deve ser lido como antípoda do platonismo, isto é, não como a fabulação de uma ideia, a gênese anamnésica de Ana /reminiscência, mas sim como a fórmula da descoberta, a concepção da articulação do mesmo na mudança.
           A irmãzinha já existia enquanto outra, enquanto cofre, feto, ventre da mãe, e se ela cresceu, agora é entretanto ela mesma, tendo mudado. A intelecção do devir que não devemos confundir com a factualidade qualquer, mas sim como história, subjetivada como ações cujo sentido só existe num referencial limitado de valores, é o caso nesse pequeno mito, ao contrário do que Lacan supunha. Pois nele Hans enuncia o principal, que a irmãzinha "já" estava quando era cofrezinho - isto é, não a coisa imutável, mas sim aquela que mudou, obviamente a irmãzinha não sendo agora "cofrezinho" e sim menina.
          O próprio Lacan, ao opor Real e Simbólico, não pode nem quis fugir a isso, ao anti-platonismo pelo qual o devir, se é mudança temporal, tampouco é factualidade qualquer, e sim processo relativo a um referencial. Porém Lacan retorna sintomaticamente ao platonimso, assim como a geoegologia ocidental logo rompe com a descoberta romanticista da temporalidade imanente ou histórica. Ela se lança no que vai ser o dilema construído entre positivismo e funcionalismo, do tempo estrutural.
            O tempo positivista é irreversibilidade do progresso, a inexorável marcha à frente na cronologia da técnica que respeita a dos relógios, esses seres técnicos "em si" como o serão, nos lembra Bachelard, aqueles elementos químicos sem noumeno que estavam para serem criados em laboratório. O fim da história será ainda a perpetuação do progresso técnico, porém ela mesma constituindo a conflagração contra o passado da ideologia.
             Enquanto o tempo pós-positivista da totalidade cultural, sem miscigenação, mito absoluto, é o de uma história que se limita à conflagração moralizadora contra a distopia do progresso e da legalidade, ao cabo da qual se restaurará a identidade inamovível dos começos, a identidade sem devir que é enfim, de novo, a possibilitada ação mítica da origem.
            A aporia da ação é a angústia de toda modernidade, desde o romanticismo, uma vez que quanto a modernidade, é a irrupção na episteme desse impossível até aí para toda a trajetória que uniu o platonimo ao cristianismo feudal soldando assim a conjuração da descoberta da natureza na época clássica, pelo deísmo do "pensamento" como atributo do Deus substância. Esse impossível que é a ação imanente na natureza, quebra de todo dualismo corpo-espírito.
             O evolucioniosmo biológico e a História como ciência social, na decorrência da quebra do dualismo do homo natura pela sobrevinda do homo storia junto com a independência das ex-colônias na América, representa pois a aporia do crescimento na mentalidade metafísica-europeia, e não há unidade "para si" ocidental fora da metafísica que não é porém, segundo creio, o a priori da linearidade significante, a fantasia inexconjurável do Ser. Mas sim a fabricação da unidade da sua história, a partir da fantasia da unidade que oculta a verdade gritante dessa história como da grande heterogeneidade cultural, dos ceticismos sextianos e criticismos  retóricos gorgianos, dos multiculturalismos helenista e pós-feudal, etc., desde há muito para além da metafísica.
          O crescimento como a conflagração, entre o futuro dos positivistas e o passado dos funcionalistas, deve entretanto destruir, e vemos como os dois extremos destacados do que deveria estar articulado como a temporalidade imanente dos processos. Lacan recusa o termo "processo" psíquico, e vemos que ele paranoicamente identifica a mulher com a "falta", isto é, precisamente com o devir enquanto o avesso do Ser.
            Para Lacan, pois, a mulher não existe do mesmo modo que é irrealizável a mudança conceituada, havendo para ele apenas a disjunção entre a ausência da ideia geral ("matriarcado") como limitação a exemplares particulares, e a presença do universal como ideia platônica ou hipokeimenon, sujeito-substrato universal aristotélico. Entre o devir oligárquico-metafísico, isto é, o conceito bastardo a custo pensável do que é sem conceito, e a presença da ideia sem devir, temos as figuras lacanianas da mulher e do homem, da ausência e da presença do falo, e se o que é a custo pensável não é de fato pensável, então há esse falo imaginário da mulher, que a criança-sábio testemunha. Para Lacan a mulher não existe assim como o devir não é pensável, e (contraditoriamente) é -  a infixação do significante entretanto conjurada pelo inconsciente sistêmico.
         Não creio que Hans tenha se curado  da perversão por aceitar - de um modo estranhamente perverso - a destruição do falo da mãe, assim como da condição deficitária de si, na espera da identidade do pai substitui-la, isto é, identificando-se totalmente a Freud e ao  pai.
            É interessante que nesse caso, Hans seja um analisando especial, de um pai psicanalista amigo de Freud. Ele está assim na posição que Merton definiu como a da marginalidade, entre dois grupos - como seria o caso do soldado que participasse por algum motivo, da convivência íntima dos oficiais. Ele se prejudica assim, pois nem é reconhecido inteiramente como igual pela sua condição, os soldados o veem como um outro; nem é ainda verdadeiramente a condição outra dos oficiais, a qual ele não alcança apenas por uma prática integradora, mas a partir de uma projeção idealizante, perigosa à prática. 
             O sonho curativo, em que Hans-traseiro é instado a virar-se à frente e mostrar o falo, permite a meu ver a interpretação do modo como ele realmente realizou a articulação do devir, escapando à armadilha do Ser. O movimento é o que Lacan supôs  o vínculo da fobia enquanto suporte de aceleração, uma vez porém que para Lacan a aceleração hansiana é o motu da queda, o que ele teme da parte do cavalo como da casa, do "barraco" do pai e da mãe. E jamais Lacan nota que a aceleração é a precipitação da mudança, de modo que a fobia deve ter dois lados, se o cavalo é o pai ele tanto é a mudança solicitada ao pequeno Hans, destrutiva de sua pequenez como desse si pequeno sem que ele conheça-se outro, como o pai é a não-mudança absoluta, o que jamais porta algo de outro, se ele é a grandeza, o outro absoluto do menor.
        O que fazer da aceleração? A princípio, reduzi-la ao perigo de cair, mas quando Hans é instado a se virar, mudando de costas para a frente, ele personifica bem piagetianamente a articulação temporalizante - assim como quando se começa a andar, constroi-se o espaço que jamais se apreende sem conjugação do "grupo de deslocamentos", como as mudanças de direção, o frente/trás, etc., investidos corporeamente. É interessane que o termo "virar-se" também possa ser traduzido "voltar-se". Hans supera a contradição própria entre os dois trens do retorno, deixar o pai e vir com o pai, na identificação de si com o termo que fôra o porvir da viagem, a avó. Ele volta-se, nesse sonho, só consigo e por si mesmo. Creio, inversamente a Lacan, que Hans deve ter sido um rapaz bastante liberal e compreensivo, provavelmente um cientista.
          Neste estudo visamos Sorel como artíficie e exemplar da ruptura pós-positista relativamente ao tempo da irreversibilidade técnica, positivista. A paralogia soreliana é o interessante calembur pelo qual da afirmação tautológica de que se há crime não há legalidade, opera-se o gap que interdita o caminho para a transformação enunciativa recíproca, pela qual se há legalidade não há crime, restringindo-se ao invés  a intelecção ao silogismo a partir da premissa:  há crime, logo não há legalidade (há força e/ou violência).
          O gap é construído por uma série de contradições.  A greve geral é o mito que deve orientar o proletariado, mas é o próprio sentido do proletariado enquanto agente do socialismo. Ela deve assim vir necessariamente, e vir porém dependendo de se poder afastar a ação outra da esquerda legalista. Quanto a esta, é sempre a assunção errônea do futuro do proletariado como emergência à classe média, mas a própria classe média deverá ter as fantasias desfeitas depois de ter sido devidamente humilhada e financeiramente extorquida pela plutocracia, e, então, incorporar-se à violência proletária atuante da greve geral revolucionária. A violência é o real como o corolário necessário, o revide, da falsidade do legal na plutocracia, porém a falsidade é demonstrada pela força da extorção e da humilhação crescentes, isto é, pela ilegalidade constantemente verificada.
           A violência é também a ética essencial ao homem, como Sorel tenciona demonstrar com o que supõe o exemplo da criação das crianças entre os povos simples como os camponeses - que inclui a violência física; a história do cristianismo; a necessidade da pena de morte conforme a defesa de vários pensadores importantes, na manutenção da segurança contra o banditismo generalizado em comunidades históricas conhecidas. A confusão de exemplos tão incongruentes como estes num só argumento visando a essência, institui ainda que a recusa da violência é o discurso do "efeminado", o contrário do proletariado.
             O mito totalizante é pois, ele mesmo totalizado, na contradição fálica do Ocidente neocolonialista, como o particular que define o universal. Sorel não se coloca como exceção na ambiência funcionalista e heideggeriana, onde as culturas são totalidades autônomas porém Ser ideal do significado na cultura, e, assim, elas são o que o ocidente define. A psicanálise não chega a romper a aporia. Tampouco a trajetória que vai daí à new left, passando por Hanah Arendt e o que hoje em dia tem sido assimilado, como em Cassin e Kristeva, em termos de sua crítica "aristotélica", prático-política, ao idealismo  platônico-heideggeriano de gabinete. Pois para Arendt o que se constroi na prática política é a narrativa do ideal, a prática como a dramatização dos papeis fixos distribuídos na cultura.
        Se a imanência irônica do tempo romântico encontrou a aporia do realismo positivista, vemos que já a ruptura com o classicismo o Ocidente confrontou como o drama da legalidade enquanto o enunciado que devia distinguir absolutamente o Ocidente, o tempo de uma transformação absoluta na e da História. 
           A fissura do tempo pós-kantiano, tempo não deduzido portanto, deixava a alma romântica na essencialidade da melancolia, o anelo infinito pela perfeição como pela eternidade.
              Ao contrário do ideal plástico da beleza perfeita classicista, o romântico só vê a imperfeição dos nossos seres temporalizados e inquietos, conforme a um cristianismo transformado pelo jansenismo, e que devia induzir à consciência da humanidade não-salva, da alma absolutamente finita. A ironia distanciadora é a ética do melancólico incurável. É preciso lembrar que se o positivismo inverteu o devir romanticista, da realização do ideal à da materialidade, ele abstraiu de todo o papel histórico da cultura no romantismo, como o meio da realização da materialidade. Mas o positivismo assim como Marx, conservou o objetivo legalista da modernidade.
            O que é impensável, em todo caso, é o terceiro mundo enquanto realidade não dicotomicamente totalizável, e é nessa interdição que reside a impossibilidade de se ultrapassar totalmente a metafísica do classismo, ela mesma não platônica a partir de si como dualismo dessa natureza já visível, já não a contradição total da khôra e/ou da pura potência.       
          Ainda que o romantismo tenha feito a abstração do terceiro mundo enquanto imanente á transformação da sua racionalidade - a América, natureza material não dedutível, meio do empirismo entre epistemologia e teoria política - não o fez por uma teoria do capitalismo a que se reduziu a legalidade como sua gênese. O objeto pluralizado da oralidade romântica, o devir pensável autônomo dos povos em miscigenação, era porém lançado na aporia da superioridade europeia do Saber, autoconsciência de que somente se desdobraria a legalidade do nível público.
            O tempo romântico, ainda que clivado pelo inconsciente  mítico da duplicidade sujeito/cultura, era o cômputo da transformação linear do moderno relativamente ao clássico. A duplicidade entre helenismo e cristianismo era agudamente acusada na base da problemática unidade europeia e não resolvida pela miscigenação, ao contrário da assimilação bárbara nacionalizante sobre a base do império romano.
          O próprio termo "romantismo" vem de "romanço", as línguas nacionais oriundas dessa mistura, segundo W. Schlegel, o artífice. Por um lado, a estética romântica rompia com a unidade greco-romana do classicismo, introduzindo a noção de cultura que temos hoje, cânons múltiplos e paralelos ao contrário de uma "poética" única aristotélica, barroca/clássica, universal que permitira distinguir absolutamente do civilizado apenas o "natural" de todo inculto.
           Assim, por esse lado do romantismo pós-aristotélico, o teatro era culturalizado - ao contrário de imitação universal. Como estilos próprios a uma técnica cênica, havia entre os primitivos e outros povos europeus, mas não entre portugueses e alemães, estes mais poéticos do que dramáticos (drama=ação). Por outro lado, a doutrina romanticista eslava da missão histórica de cada povo estava sendo contraditada pela superioridade europeia a ser explicada na história desde a nacionalização dos processos por Herder, e Hegel foi quem cumpriu a contento a tarefa de reconfigurá-la narrativamente, como grande relato da evolução do Estado.
           A redução positivista, o reducionismo  sociológico comteano ou economicista marxiano, respondem ao apelo idealizante da transformação legalista como resultando do processo intrínseco ao saber europeu, ao invés da intercessão  geopolítica oriunda da expansão ultramarina e seus efeitos históricos. Forjou-se a idealização da "sociedade industrial", o ethos grupal científico em Comte e Spencer, ou a economia capitalista assalariada em Marx. Aqui o efeito cegante da teoria da Revolução Industrial é manifesto, com o processo de açambarcamento das economias americanas pelo império inglês já patente, mas não mencionado em Marx ou Spencer.
             Em Marx, especialmente, temos a enunciação que vai ser preponderante até hoje, raramente deslocável, do capitalismo como racionalidade  - e se Marx é imbatível como escritor das atrocidades do colonialismo, o que ele julga como transformação propriamente capitalista é o tempo reencontrado da razão ocidental, nada deixando filtrar da violência imperialista,  frei Caneca, o Paraguai, etc. Assim como para Hegel, em Marx os Estados Unidos são o horizonte do futuro, como da produção. 
            O pós-positivismo não pode ignorar o neocolonialismo, mas de fato é essa ambiguidade de uma arte das origens, como do inconsciente sexuado das formações infantis extratificadas, de que só se tem a notícia por meio da mais brutal apropriação. As ciências humanas que se tornam trabalho de campo aí, são veículos dos governos neocoloniais. A história de novo reduzida, agora antropológico-socialmente, continua insolúvel quanto ao problema do tempo que passa.
          Na decorrência mesma do neocolonialismo, a teoria do capitalismo como progresso da legalidade correspondendo absolutamente ao processo intrínseco do "ocidente", sem qualquer determinação fenomênica do terceiro mundo, é radicalizada em Weber. A origem seria resgatada porém por um ocidente a ser transformado por meio da conflagração da cultura contra a "civilização" de signo positivista. Os povos primitivos na origem, estavam em todo caso na rota da destruição pela expansão odiosa da técnica  - e era uma questão de se poder transformar não a expansão,inevitável, mas o próprio ocidente destinado como estava a dominar o mundo.  
          O estruturalismo tem o seu rise numa época em que a concepção de sociedades "em desenvolvimento" chegou a emergir.
           É o pós-guerras, o capitalismo que podemos designar clássico na forma das teorias intrínsecas, realmente colapsou como previa Marx em uma de suas formulações da catástrofe, aquela que privilegiava a tendência contrariada dos ganhos devido ao acirramento da concorrência, cuja expressão porém havia sido, como não poderia deixar de vir a ser, entre potências neocoloniais e não entre empresas. E as demais formulações marxistas da catástrofe sendo a soreliana, pelo depauperamento progressivo do proletariado que iria assim se tornar revolucionário; ou a spencieriana, pelo progresso da técnica que iria fazer da produção a agência emancipadora dos agentes.  
           Ao invés do capitalismo primeiro europeu, temos agora o neocapitalismo norte-americano, com suas características econômico-sistêmicas próprias como listadas em Pierre George ("Panorama do mundo atual"). Porém entre elas o que a meu ver deveria ser maximamente ressaltado, a saber, o caráter indeslocável à vista, do imperialismo. Não só pelo caráter anti-democrático do intervencionismo  norte-americano na margem, por via do suborno para-legal (Irã, América Latina) ou propriamente bélica (Vietnã, Coreia), que foi assimilado pelos historiadores imediatamente. Mas pelo caráter geopolítico da própria assunção enunciativa da hegemonia - a partir dos efeitos da quebra da bolsa em 29 ter arrastado consigo o todo da economia europeia.
           Na emergência pós-guerras da noção de sociedades em desenvolvimento, ocorre a concepção de algo em trânsito efetivamente histórico, o desenvolvimento como devir, porém por um lado é apenas a mesma sistemática da repetição - é a trajetória ocidental que se tem que repetir na margem, a fim de se obter a modernização do centro.
          Essa concepção falsa, não processual do devir como repetição de uma "diferença" ideal, limita todas as teorias de fundo estrutural, como o "ser" totalizante do significado limitava antes as funcionalistas. O que se pode exemplificar ao máximo com Deleuze, onde a diferença ideal é o estereótipo de um povo, sendo todos os povos assim a-historicamente reduzidos pelo filósofo europeu de gabinete, a tipos de que o europeu pode ao seu bel prazer se apropriar em sua mente, como o seu devir, sem jamais ter saído da Europa - assim como o homem, à mulher.  
          Por outro lado, a noção de nações em desenvolvimento fabricava-se para impingir a política de exportação de capitais, cuja importação na margem implicaria o fomento necessário à industrialização local. Porém implicava sim o endividamente externo por meio de contratos cujo absurdo jurídico, conduzindo à mais espantosa extorsão monetária, Z.  Romanova ("A expansão econômica dos Estados Unidos na América Latina") testemunhou muito bem.
             O ambiente anti-tradicionalista e racional-progressista que se seguiu daí na margem foi apenas uma corrente eufórica em meio a tendências concomitantes interpostas pela intervenção do centro, destinada a cortar o desenvolvimento real, político, coerente com a expansão das forças produtivas. As ditaduras que se seguiram deviam instituir o que hoje se designa a modernização-conservadora na acepção de tradicionalista, perpetuadora da hierarquia oligárquica. A qual só permanece pelo predomínio da economia exportadora de mercadorias de baixo-preço, agrícolas ou mineral-energéticas. 
          A contradição entre essa permanência e o que a política de exportação de capitais deveria implementar como industrialização local, foi apenas um efeito temporário. Na prática o que estava havendo era a transição do aparato estatal da indústria endividada para a penetração do capital industrial "central", de modo que logo depois das ditaduras ,a redemocratização foi na verdade o sucateamento das estatais apropriadas elas mesmas a baixo preço por multinacionais sediadas nos países centrais - foi assim, e não de outra forma, que o problema da dívida externa na margem foi "sanado". Ou seja, perdendo o terceiro mundo todo controle nacional-estatal sobre os setores estratégicos da indústria, que passaram para a posse do capital estrangeiro.
            O planisfério geopolítico presente, do conflito norte/sul, cartografa apenas dois hemisférios, respectivametne "desenvolvido" e "sub-desenvolvido", já não havendo a noção de nações "em desenvolvimento". A reserva do saber tecnológico pelas multinacionais dos países centrais, e a "globalização" apenas de sua indústria monopolista, implicam de fato a obsolescência da concepção futurista de "desenvolvimento" tecnológico na margem.
            O conceito de "desenvolvimento" se torna restrito à homogeneidade do idh (índice do desenvolvimento humano) que mede itens como acesso à cultura, longevidade, saúde, lazer ,  moradia, letramento, etc., o que é coerente com a descoberta da problemática ecológica. O que se define no terceiro mundo é portanto um estado de disparidade de classe (renda) e status (cultura) espantoso.
             Na atualidade da globalização, a censura enunciativa do terceiro mundo como realidade da dominação econômica colonial-imperialista, assim como à crítica da ideologia, vem se tornando orgânica à própria produção da escrita via dominação info-midiática.
          A neoanalidade da dominação info-midiática, a idealização do tempo do futuro maquínico perfeito, é paralela à ocupação das instituições na margem pelo investimento obsoleto do funcionalismo tradicionalista, que pratica um anarquismo intervencionista do privado definível sem dúvida como neofascismo, oportuno entretanto à assimilação do personal computer como veículo ideal do avassalamento do privado - de novo impensável.
        A democracia ou legalidade como a consciência da heterogeneidade, vemos que emerge em sua forma contemporânea apenas na decorrência geopolítica da interação multicultural. Essa heterogeneidade em devir é o que a democracia pressupõe nacionalmente, como o nível privado  em seu conceito de população e a esfera da subjetividade como personalidade singular em devir. A legalidade do nível público,  só se torna pensável relativamente à heterogeneidade do nível privado, sem a qual ela não seria necessária pois a coincidência absoluta de fato e valor se verificaria na efetividade a-histórica assim como na língua reduzida ao sistema do significante e/ou do mito significado. 
          O avassalamento do privado na globalização institui-se pois como neofascismo - a subsunção total do sujeito ao Estado e/ou dominação técno-midiática  -  e radicalização dos enunciados e práticas contrárias à legalidade. Fantasias psicóticas como da total transparência da linguagem universal - computacional ou midiática - ou da coletividade sem ego são a constante enunciativa da dominação que pretende restringir toda aptidão criativa pessoal assim. O limite é a fantasia de uma globalidade sem nações constituídas, integrada por um sistema automático substitutivo da consciência, da história e da cultura. Na efetividade entretanto, o que se verifica é o acirramento da desigualdade, especialmente entre nações, devido ao acirramento da exploração imperialista. A meta do desenvolvimento humano se vê prejudicada na margem pelos esquemas imperialistas e/ou oligárquicos, que reforçam a desigualdade e mentalidadade brutalmente hierárquica. Ao mesmo tempo que elidem a heterogeneidade de costume e expressão privada, elidem as políticas que visam homogeneidade de idh. 
            A interpretação necessária na interlocução da linguagem, como o que interpõe o caráter da alteridade na linguagem, não foi pensada na hermenêutica funcionalista que pretendeu apenas discernir como tal o Ser unívoco do mito. Sorel não avançou a partir desse ponto, o que, ao que parece, fez o pequeno Hans. 
          Na atualidade, o verdadeiro horizonte pós-modernista na ciência tem vários aportes que permitem de fato um ex-centramento visando o pensamento do devir. A teoria freudiana dos traços mnésicos, a que deveria ser submetida toda captação material-perceptiva, está refutada pela constatação em laboratório de que as mudanças atribuídas do objeto visto são realmente constituídas nos próprios sistemas materiais perceptivos. Com Piaget, observamos que o desenvolvimento mental é feito por amplitudes crescentes de relações, não por a prioris ou ideias gerais como polos indecomponíveis de objetos.
          As ciências humanas acarretam assim a sucessão dos paradigmas e afinal a superação da ciência idealizante, a partir de sua continuidade como pesquisa empírica, independente da elaboração discursiva. Elas são portanto, o horizonte da crítica política possível, e não unificáveis conforme algum parâmetro de "representação".
          É por esse viés, já em convergência à linguistic turn, que hoje podemos reconduzir a necessidade de continuar o pensamento do inconsciente cognitivo-sexuado, assim em convergência ao pós-modernismo estético enquanto problematização da heterogeneidade histórica-cultural e subjetiva. 
          O inconsciente está para ser reavaliado à luz da "textolinguística". A concepção atual da linguagem como tendo por módulo mínimo não a palavra ou a frase, mas o texto ( ou "intertexto", interlocução em um gênero, com os outros textos que informam o seu conteúdo). O texto não se articula pela unidade do significante, mas pelos meios por interpretar, com que logra sua coesão ("microestrutura", recursividade do léxico contextual) em pararelo à sua coerência ("macroestrutura", união de tema e endereçamento).
          Quanto ao tempo psicanalítico, naquilo que coloca como a questão de sua emergência na era funcionalista soreliana, vemos que  é curiosamente clivado pela aporia desses inícios. Ora a psicanálise como ciência de sua época, quis ser a contraparte do modernismo estético e do anarquismo ético, reafirmando a linearidade progressista-positivista da formação psíquica "genital". Ora ela operou por si mesma o retorno do tempo mítico, enquanto ciência do tempo pós-positivista, ao estipular a objetividade da formação na identidade ideal do pai.    
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